Mãos juntas, olhamos o céu, nesta partitura ogival a clave da cruz e da luz, e nas ânsias de cúpula o buraco negro por onde nos entram os pássaros e a morte a conflagrarem toda a pena, connosco em braços, a um tempo, ao eclodir das preces nas armilas.
Luíza Dunas (Luísa Sousa Martins) nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.
Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Diamantes
acordo
o morcego, há um disparo de luz que nos chega do céu da noite, corremos
espantados por entre os troncos e árvores da floresta, abrem-se
clareiras ante os nossos olhos, de um branco não suportável, caímos e
fechamos os olhos ao gritar
estou numa gruta, prostrada, olho à
minha volta, é um nicho de alquimista, cheira a suor de lobos, entra um
falcão, cela a gruta, olha-me sabiamente, estou perfumada de cios, sinto
o fôlego de vários fôlegos, em feroz ternura.
| diamantes |
Salto da gazela - sonhos de uma curandeira
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Escrevo
em noite. Escrevo medo. Vejo a noite do medo, o tremor da alma, a
deriva do corpo. Vejo os anjos sentados ao meu lado, olham para mim,
inexpressivamente serenos. Guardam-me e aguardam que me sente eu a seu
lado. Olho para eles e choro na certeza de apenas poder
ir ocupar o meu lugar, e vejo-me impotente, de uma solar impotência.
| Salto da gazela - Sonhos de uma curandeira |
| Salto da gazela - Sonhos de uma curandeira |
Já estou a vê-lo,
páro,
Ó paaai !
Os sons propagam-se velozmente por estes e outros vales, todos eles fundados nas cristas das cordilheiras. Tenho esta visão de pro fundo.
O meu pai é atingido, e responde-me, Ei !
Levanta os olhos para cima, e vira-se à minha procura. Estou a 180° e uns anéis acima. Levanto os braços a acenar-lhe. Encontra-me e acena-me.
Vou descer, com vista para toda uma vida.
Estou a dormir, sonho. Acordo no sonho e observo-me a sonhar. Uma terceira consciência dá conta de que estou a observar-me a sonhar e dá-se, então, uma subida. A percepção é claramente de subida, ascendendo um caudal estratificado mas sem barreiras, um fluxo livre. Nesta subida se plasmam e reúnem as várias consciências, por momentos desaparece a diferenciação e depois segue-se a vivência directa da memória.
Aqui, deitada, olho as paredes do sótão, encontro os rostos de antepassados e lugares no mundo onde nunca estive mas conheço desde pequena, nestes quadros. Vejo o meu irmão Virgílio e um cão. E vejo as mobílias, as casas e histórias que guardam, imediatas. Vejo as traves de madeira e o tempo em que havia apenas telhas, e as lareiras nas casas das minhas avós, e as sopas ao lume nas panelas de ferro, as vassouras feitas de giesta. Os sinos da igreja tocam o que já passou, a mudança, e a inseparação, o próprio fluxo. Também o medo, como no sonho, quase uma voragem. O meu corpo ganha consistência, sobretudo peso. Vou levantar-me.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Artúrea
Aura cinza branca, orla dourada e quente da montanha, pássaro suspenso nos ventos, lua em bruma cálida, batida, bendita, rochosa, a ama. Brame a ferida no areal a ursa, anfíbia ursa, luzem escamas, vénias d'amor sob a espada na caverna dos mares.
| Salto da gazela - sonhos de uma curandeira |
Por ali andava o cavaleiro, esquecido das cinzas, o sítio era brisa e espera. A morte não se distinguia da véspera, o caminho não saía do mesmo lugar - como no paroxismo da sede num deserto em que todas as linhas do horizonte se tornam iguais ao ponto, prodigiosamente.
Isolda, Isolda.
O mais era poção de chuva suspensa.
Mulheres que acordam com os lobos
na matemática misteriosa da esfera é o encontro que conta, uma indeterminável simultaneidade a tecer o imperativo desencontro, pura respiração. O céu verte assim os sopros arcanos, as perdições medicinais, os mares e as marés, os bosques e as árvores, os sóis e as luas, os gemidos nas noites virginais,
e o olfacto.
vim a ti, irmã de profundis,
no teu coraçao está o meu coração
ai
sinto as narinas grutas batidas de mar, os ouvidos a surdina destes fundos, as têmporas rebentam-me as costuras do sangue, morro-me, elegia-me teu neptuno canto, leva-me em teu dorso ao areal.
no dorso da baleia | Salto da gazela - sonhos de uma curandeira |
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Olhos na crista da falésia, na escarpa vigilantes, fixam as quedas do abismo, o cheiro de sangues nos interstícios das ruínas, areais levados pelas marés, aqui os pássaros, guardam entre as vozes dos tempos o entoar do mar, a canção das perdas e dos vendavais, e mandam as correntes aos sonhos do azul, para ti, de novo em mim, contra os rochedos e o céu, corpos assombrados da luz, bálsamos de algas, mãos, as tuas mãos, os pés, os meus pés, de regresso, a cavalo.
sexta-feira, 1 de julho de 2016
segunda-feira, 27 de junho de 2016
quinta-feira, 23 de junho de 2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Ela já lhe ouve os cascos a revolverem o leito do rio, homem, vertiginal chama, nestes altos cerros os alecrins e os cardos, jóias perdidas e florescidas, fragas, musgos, o aguarda. Os húmidos desventram-lhe as trevas, a entrada na cela, anuncia-lhe o corvo a hora, ela ajoelha-se, atrás de si o chegado, salivante, hálito quente, toma-lhe o colo e morde-a ! , pó luz abismo, transfigurados, as rosas.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
sexta-feira, 27 de maio de 2016
segunda-feira, 9 de maio de 2016
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Na montanha deserto a chama no céu da noite,
nas brumas nocturnas rosa o desejo da coroa,
lascívias do sono nos limiares da pantera,
o bramir das sombras, pássaros, luz,
e no silêncio
o uivar da flauta.
| the silent flute
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sexta-feira, 15 de abril de 2016
águas de abril
chove sobre a vinha e as árvores, chove sobre as terras e os vales, sobre as rochas e argilas, chove sobre os pássaros e os cães e as flores, chove sobre a minha cabeça, chove sobre os rebentos e os verdes e os ribeiros e as cinzas.
sexta-feira, 25 de março de 2016
in extremis
Filho !
benze a virgem seu vinho, púrpura paixão, amor,
chaga florescente, a poda
cai o céu !
Maria suspensa ante o rapto fogo santo.
terça-feira, 22 de março de 2016
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
noite de reis
pai solar ventre mater
corpo de luz temperar
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