Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

na procissão do sol, a concha, os fluxos
das trevas, pérolas, derramam luxos.
pássaro sou
coração meu dó
na hora do luto e do arroubo
o sobrevoo tão só.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

eis o instante
taça erguida na sede de nada
coração
panteão
miradouro
silêncio
de nós.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

para bom entendedor, sagrado é amor.
na carne dos lábios
as funduras do silêncio e do carme
beijo carmim o infindo

sexta-feira, 29 de novembro de 2013



no invernar
pinta a azeitona, desnuda a videira
aos pés a folhagem, espinhos nos soutos
o viço nos musgos, queimam geadas,
o frio desata um calor nos cheiros dos campos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

templo n'água
o entorno da sacra mãe,
sangue, sal do tempo, o tempero
escadas, a temperança, graças de céu.
sangramento lacrimal,
ventre em derradeiro pranto, 
no íntimo luto a luz de Aparecida.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

no fundo alento as mudas do espírito
matriciais dores da desencarnação, 
o abandono, o âmago
- Pai, porque me abandonaste ?

samhain

é na morte a vida de todos os céus
antepassados, oh anciãos amores
em meu sangue os vossos, os ossos, os humores
as fogueiras, os cedros, as macieiras
o fumo das taças, das entranhas, fulgores -
ao rubro nas vénias outonais a aura dos ancestrais.
ar, fumo, o espírito
em carne negrume luminescente
brancura a dor, o dom
fogo mudo, fogo tudo, ouro, ouro
o ouro.

domingo, 20 de outubro de 2013

serpente, minha cidade
oráculo espelho da trindade
teu corpo é solo, é colo
natal, berço e morte,
tua pele, penas e graças, as calçadas
nas tágides águas o halo das peles largadas.

a estibordo, os ventos da luz infinda.
o mar das profundezas inunda as flores dos altos cumes montanhescos.
espigas douradas
anseios do desnudar, a desfolhada,
sonho-te nos milheirais.
Tudo em pausa no sol do equinócio. Só o caniçal dança. E a criança.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

joelhos ao solo
justo silêncio 
incenso, descalço coração
nos pés a língua húmida, o beijo do leão.
subida ao monte
descalça, peito nu
meu cavalo branco, brando
pulsar da terra, bravo corpo
o lume e as cinzas, santa incensação.
na queda prometida, a humildade, o húmus, o pomar.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

tocam os sinos
acendem-se tochas
partem amores ao vento
os gárgulas guardam.
cânticos dos cânticos
espíritos magistrais
graças d'amor 
tomam o corpo e o sangue de tua filha,
Nossa Senhora da Sede. ámen.

( amanhecer na Catedral de Sevilha )
o canto dos ciprestes
escrevem os pássaros
nas douradas planícies à brisa das ternas neblinas de setembro.
o corpo é um milagre.
no forno
fumo, pão, corpo e sangue
do fogo tessituras
o templo, ao alto as juras, chuvas.
no espigueiro o recolhimento,
a cela, o celeiro.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

quando estamos a morrer, amamos.

deserto descoberto, a pele derradeira
corpo nu, olhar sem fronteira
destino, as dunas, o tempo
morrer, a saudade, íntimo ao vento.
ao sol poente a hora nascente do finisterra,
desfiladeiro dos peregrinos do oriente.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013


o homem nasce para libertar o nascimento de si.

sábado, 27 de julho de 2013

à temperatura abissal
se encontra a noite e a transparência.
ao anoitecer a fé
no tombar da luz as escadas
alvo, o altar, na subida à madrugada.

terça-feira, 23 de julho de 2013

no athanor, a egrégora
o sopro no fogo, a amalgama
a operar num só, todo, fundo e evanescente corpo o jamais tempo .
meus Irmãos !
volver aos fundos, húmido impregnar
pulsa o retorno, amor
a perecer nas graças do alvor.
na mira o peito aberto,
a este no horizonte 
o amanhecer da esfera
fado da noite armilar.

quinta-feira, 11 de julho de 2013


limiar da pena, o calvário
teu amor, tua dor
minha dor, meu amor
mãe, velada consagração.

na dúvida, o benefício da escuta.

no timbre da pena pendulo 
em matinais e nocturnos repiques
sino é o meu peito monasterial
sonoro silêncio, amante respirar.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Neste rio a correnteza dos tempos,
pranto de todas as almas,
a minha pia baptismal.

sábado, 22 de junho de 2013

parto na procissão matinal dos ventos,
sob a neblina o imponderável rumo
a solo, em unas areias, deserto meu.
abisma-te no solstício
em suspensão ante a estrela
o céu anuncia sem iludir 
o crescendo da noite por ti vai subir.

Tocai-vos uns aos outros.


a busca é o vício,
ébrio adiamento,
o êxtase para não encontrar.
No vale das oliveiras chora a pobre menina das minas de ouro.
O corpo é um estado de espírito.

o coração de Lisboa é uma aldeia,
uma menina senhora, uma criança antiga,
uma frescura rubra, um rebento filosofal,
os sinos das torres das igrejas vibram as colinas
e todas as calçadas são santuários,
e todas as janelas são miradouros,
e todas as almas, santas
- Lisboa sacra