Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



quarta-feira, 26 de julho de 2017



Noite em chama, por esta vereda passo, altos muros, altas árvores, ao alto o céu, percorro-a, ao fundo o portão e o guardião, corro, acorrem as árvores, tocam-me os ombros, abrando. No limiar viro-me, tenho as árvores a olhar para mim com olhos de pássaros nocturnos, volto-me para o portão, avanço, e aos primeiros passos para fora outros tomo para dentro. O bater metálico do portão sela-me as sombras dos tempos. Aqui fora dou passos largos sobre a calçada, cá dentro pausados, pés nus sobre a relva; aqui fora a noite quente, aqui dentro o húmido entardecer, os pombos, os melros, os pardais no seu canto; agora que é noite atravesso a estrada à luz dos candeeiros, e aqui estendo-me na relva, o azul claro pende sobre as árvores e o rio neste recanto.

quinta-feira, 13 de julho de 2017



Ela entrava no mar, a ondulação convergia para si de todos os lados, as várias correntes puxavam-na pelos tornozelos, as ondas não rebentavam, mantinha-se de pé com dificuldade, mas avançava, prometera imergir, virou-se de costas e largou-se, a rir, para das águas se cobrir. As ondas cresceram, do areal uma voz chamou-a, ao erguer-se o mar era um longo manto que trazia sobre os ombros. Chegada ao areal sentou-se a olhar os pés, e começou a cantar, era uma canção de Aquiles a cantar Hermes.
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Salto da gazela - sonhos de uma curandeira