Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 20 de setembro de 2016



Estou a dormir, sonho. Acordo no sonho e observo-me a sonhar. Uma terceira consciência dá conta de que estou a observar-me a sonhar e dá-se, então, uma subida. A percepção é claramente de subida, ascendendo um caudal estratificado mas sem barreiras, um fluxo livre. Nesta subida se plasmam e reúnem as várias consciências, por momentos desaparece a diferenciação e depois segue-se a vivência directa da memória.
Aqui, deitada, olho as paredes do sótão, encontro os rostos de antepassados e lugares no mundo onde nunca estive mas conheço desde pequena, nestes quadros. Vejo o meu irmão Virgílio e um cão. E vejo as mobílias, as casas e histórias que guardam, imediatas. Vejo as traves de madeira e o tempo em que havia apenas telhas, e as lareiras nas casas das minhas avós, e as sopas ao lume nas panelas de ferro, as vassouras feitas de giesta. Os sinos da igreja tocam o que já passou, a mudança, e a inseparação, o próprio fluxo. Também o medo, como no sonho, quase uma voragem. O meu corpo ganha consistência, sobretudo peso. Vou levantar-me.

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