Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



quinta-feira, 10 de maio de 2018


e tudo o vento levou, e semeou.



Vou continuar a ler-te, a encontrar-te nas ruas desta cidade, nos lugares em que caio ou me reapareço, que me chamam para me insatisfazerem nas escrituras dos tempos. Já estou a falar em várias línguas, o seu espírito aperta-me, possessivo, largo-o, excepto quando o não posso pronunciar ou quando o meu corpo tem fome de sacrifícios. Entro neste convento, caio imediatamente numa imensidão impensável, as asas dispensam-me. É meio dia, pego n'A Insustentável Leveza do Ser, quero ler-te neste estado impensável, vou para os claustros. Sento-me encostada às colunas e leio repetidamente as mesmas frases desta página, perco-as, mas volto a mim, ou melhor, voltam-me os claustros. Está um vento quente e o sol bate-me no peito, descalço-me. Os pés despidos trazem-me - não vou dizer leveza - o cheiro dos arbustos e as geometrias respirados por centenas de anos. Como me vou levantar da alegria deste lugar ?

| da original queda |

sim, virás, à pauta, à fuga, dentro para mim, às águas vivas, ao corpo animado, à íntima boca, à alegria nua.

| profecias de lácio |


terça-feira, 10 de abril de 2018





Com o cair das águas e o soltar das bestas me vens acalmar e ensinar a espera sem demora.



sexta-feira, 23 de março de 2018


lembro-me
do cheiro das flores e dos matos dos verdes bosques que os outonos tornaram húmus e chuvas
dos meus pés nas primeiras lamas e o subir das águas e a força das correntes de um rio que se fez mar
da saudade perdida
agora que a terra avistei.



O galo cantou(me) duas vezes esta manhã, parecia estar à minha espera, passava pouco das oito e meia, eu tinha acabado de bater a porta de casa, uma branca luminosidade trespassava os vidros da clarabóia do edifício, na rua olhei para todos os lados como se o galo me estivesse a ver de um lugar distante e circular, tudo à minha volta está a cintilar.
Salto da gazela - sonhos de uma curandeira

segunda-feira, 12 de março de 2018



o sino chama, retine a hora, a manhã é a minha veste, o trinco de portas a soar no peito, abrem-me as brumas e o aveludado das asas,
espero-te
o relógio despe-te, da nascente vens.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018



estreita-me a montanha para me desprender o laço da terra
no meu corpo e sangue o requebro e a saudosa respiração

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018



no princípio era o ouro.




piedosa é a noite 
que no escuro me refunda sem dó 
e me encontra sem sombra de mim.






quando no coração entra a vida 
viver é indizível.



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018



cheira a noite, ao invernar da semente, recolhida, não adormecida, quente
cheira a noite a desenhar-me jejum e cosmogonia, a romã me pressente.


| premonições de Perséfone |


estou corpo, em órbita de partidas, roso da negrura, os anjos rolam-me à estrela, sou poeira dourada suspensa no movimento que me pausa infra, supra,
intra.


| em solstício |

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017



no silêncio não há morte.


Ele disparou-lhe para o pescoço uma substância que a fez cair, sem forças nas pernas. Arrastou-a para dentro de uma pequena sala, o chão era frio, ela não lhe via o rosto, ele ajoelhou-se e, a segurar-lhe delicadamente na cabeça, transmitiu-lhe ao ouvido sem proferir palavras um pensamento que a deixou atordoada, e saiu depressa. Era uma casa no cimo de um rochedo, com vários patamares e muitas escadas. Quando ela recuperou forças foi a pé até ao mar, pelas rochas, que íam aumentando em altura à medida que se aproximava das águas, o que lhe tirava a vista do mar, só ouvia o som da rebentação mais profunda como se estivesse imersa. Agora a rocha onde estava tornava-se escorregadia e mexia-se para baixo, o mar crescia em ondas diáfanas cinzentas ameaçando tragá-la, medo,
num instante era manhã.


| Salto da gazela - sonhos de uma curandeira |


quinta-feira, 30 de novembro de 2017


Ele trouxe-a à corte, entre mulheres a apresentou, havia uma carta escrita, conspiradamente no lodo enterrada, e uma pirâmide, nos seus corpos gemia imponderável uma sede de sol, estava escrito, amar-se-iam divinamente, saber-se-íam imortais cedo demais.


| os céus de Osíris |


Não vou dizer-te o que me dizem os céus, Espero-te. Podem cair todas as folhas desta árvore, não chorarei não teres ainda chegado. Seguirei a dança das folhas douradas no ar, estarei nas chuvas e na nudez do inverno, amarei a árvore.


| as manhãs de Penélope |

sexta-feira, 20 de outubro de 2017



|  húmus II  |

Quando tocaram o solo já não eram folhas mas pássaros.



| húmus |

num certo tombar do sol, numa certa cidade de sol, numa certa cidade de anjos, penetrou no coração da árvore da vida a anunciação da queda de duas folhas, uma graça, foi na exacta hora em que os dois olhares antigos cruzaram a estrela que esta lhes retribuiu luminosa o solo de uma floresta, de onde partiram juntos de mãos vazias e acarinhadas para as suas terras lunares, a estrela circulou-os em todos os seus cantos, santos, plantas, odores, águas, cumes, ruínas, feridas,
nus,
nus.

sábado, 23 de setembro de 2017




A ti dou a refulgência dos fundos da terra, o meu morrer-nascer,
nosso dentro, floresta e respirar,
a ti dou o tempo, e o cio das feras,
e a doçura.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017



Cabra montês

Vou no ditado dos sopros, a morrer, talham-me a fé e a terra, aqui, neste mosaico agreste, a cada passo aos altos cumes me toca a rebate a hora pia, a cruz do sagrado ministério do corpo, onde as águas ascendem aos pássaros e à sede e as penas e a leveza se confiam à superação do sal e do infinito, aqui, onde sobre as pedras quentes me estendo.

quarta-feira, 26 de julho de 2017



Noite em chama, por esta vereda passo, altos muros, altas árvores, ao alto o céu, percorro-a, ao fundo o portão e o guardião, corro, acorrem as árvores, tocam-me os ombros, abrando. No limiar viro-me, tenho as árvores a olhar para mim com olhos de pássaros nocturnos, volto-me para o portão, avanço, e aos primeiros passos para fora outros tomo para dentro. O bater metálico do portão sela-me as sombras dos tempos. Aqui fora dou passos largos sobre a calçada, cá dentro pausados, pés nus sobre a relva; aqui fora a noite quente, aqui dentro o húmido entardecer, os pombos, os melros, os pardais no seu canto; agora que é noite atravesso a estrada à luz dos candeeiros, e aqui estendo-me na relva, o azul claro pende sobre as árvores e o rio neste recanto.

quinta-feira, 13 de julho de 2017



Ela entrava no mar, a ondulação convergia para si de todos os lados, as várias correntes puxavam-na pelos tornozelos, as ondas não rebentavam, mantinha-se de pé com dificuldade, mas avançava, prometera imergir, virou-se de costas e largou-se, a rir, para das águas se cobrir. As ondas cresceram, do areal uma voz chamou-a, ao erguer-se o mar era um longo manto que trazia sobre os ombros. Chegada ao areal sentou-se a olhar os pés, e começou a cantar, era uma canção de Aquiles a cantar Hermes.
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Salto da gazela - sonhos de uma curandeira

segunda-feira, 12 de junho de 2017



Virá o dia em que morreremos um do outro, num outro veio estelar entoará a métrica do reencontro, reconhecer-nos-emos, desta vez, menos estranhos. Mas este futuro é o nosso passado, na verdade, é o nosso invariável tempo, empurra-nos inseparáveis para nos estranharmos tão próximos, e prolonga-nos este aperto, o de não sabermos estar perto.

sexta-feira, 9 de junho de 2017



Destilação




ela levava ao voo os infernos, à dança da virginal matéria, depois de a perderem nas águas o escriba e as penas, apenas fatal o desassossego. 



segunda-feira, 5 de junho de 2017



no silêncio das casas moram fractais das respirações, movem-nos a noite e tecem nas transparências paredes e vento, dão-nos à luz a sombra, o corpo, assinam o tempo e o branco e dão ao sono rumos que tombam na manhã e no esquecimento.




Depois ficaram só os dois, houve aquele romper súbito da penitência, a auscultarem-se ao céu e aos tempos e a desembaraçarem a solidão. A bela desenganava-se. No compasso estelar, o sangue corria-lhe sem temor, límpido, desfez-se-lhe o caminho e a besta.

quarta-feira, 10 de maio de 2017



Vénus prostrada, corpo deitado ao fragor da sombra, febril, os olhos abrem as cortinas sobre a montanha, ali no cume, onde o gelo ao sol promete o cair das lágrimas e o regresso das árvores, das flores, das fontes e dos pássaros, trémulos e doces os lábios no bramir-lhe a lua.

terça-feira, 9 de maio de 2017



sonhamos fundos, escuros e mansos, de memória perdidos
acometidos silêncios acordam-nos corpo
e montanha
no cúmulo do sonho acendem-se-nos origens, cintilantes, da noite esquecidas
e, então, lembramos,
lembramo-nos,
o olvido.

Destilação

A borboleta já lhe tinha dito naquela madrugada, na linguagem das entranhas na batida do tempo, o corpo franqueado ao céu. Tratou-se de um vero desencanto, não de uma desilusão, tão pouco das penas de que se descobria. Era um bendito e novo canto.