Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 3 de julho de 2018



O mundo sonhado e inexistente, o torrencial anseio, aperto, grito e mudez, paz, glória e desespero, a janela, a casa e a rua, Álvaro e todos sem camisa, a arrepiante irmandade num divino poço para o abandono ao universo sem ideal nem esperança.

| Tabacaria revisited |



Clareia a manhã, regresso ao canto dos pássaros, os melros são os primeiros a aparecer na calçada, o galo ainda dorme, as tílias estão ao rubro, inebriantes noite e dia, o tejo e o céu rosam as brumas na forja do sol que agora apareceu incandescente e sobe,
quieto, quieto.





o tempo Aparece-me, surpreende-me numa inocência de espírito, para me levar às mutações, quero dizer, aos tutanos plásmicos das tessituras, quero dizer, ao tremendamente magistral corpo, desfere-me as transcendências de qualquer angústia a que me converto, desprende-me as alegrias.


O mar já embala a pele da serpente, veio buscá-la às areias para as águas cristalinas, num sonho indefinido.

terça-feira, 12 de junho de 2018


sobre o tampo da secretária, tinta e penas, folhas de papel, envelopes, cartas lacradas, o cheiro de paisagens pela janela, os sonhos, o desejo, e a noite, cortinados afastados, céus encobertos, e o depois.


devagar devagar me sobes, vais-me subir à cabeça
já me sopras a febre que me vai arder corpo abaixo

| em paragem solar |



Tão leve, etéreo, movia-se no interior do que inicialmente me parecia uma gruta; demorou-se neste movimento junto às paredes - eram um limiar - aguardava que eu percebesse que era o interior do meu corpo onde se movia, e que nada o prendia, era um olhar. Era eu, sem ser eu. Quando percebi, atravessei ou desapareci, não sei bem, mas que era eu a partir, era.

| Salto da gazela - sonhos de uma curandeira |


Impressiona-me o tempo, este assombroso
mo
vi
men
to,
o segredo de cada dia, os verbos de cada noite e dos sítios, a olhar-me os céus e as despedidas.

quinta-feira, 10 de maio de 2018


e tudo o vento levou, e semeou.



Vou continuar a ler-te, a encontrar-te nas ruas desta cidade, nos lugares em que caio ou me reapareço, que me chamam para me insatisfazerem nas escrituras dos tempos. Já estou a falar em várias línguas, o seu espírito aperta-me, possessivo, largo-o, excepto quando o não posso pronunciar ou quando o meu corpo tem fome de sacrifícios. Entro neste convento, caio imediatamente numa imensidão impensável, as asas dispensam-me. É meio dia, pego n'A Insustentável Leveza do Ser, quero ler-te neste estado impensável, vou para os claustros. Sento-me encostada às colunas e leio repetidamente as mesmas frases desta página, perco-as, mas volto a mim, ou melhor, voltam-me os claustros. Está um vento quente e o sol bate-me no peito, descalço-me. Os pés despidos trazem-me - não vou dizer leveza - o cheiro dos arbustos e as geometrias respirados por centenas de anos. Como me vou levantar da alegria deste lugar ?

| da original queda |

sim, virás, à pauta, à fuga, dentro para mim, às águas vivas, ao corpo animado, à íntima boca, à alegria nua.

| profecias de lácio |


terça-feira, 10 de abril de 2018





Com o cair das águas e o soltar das bestas me vens acalmar e ensinar a espera sem demora.



sexta-feira, 23 de março de 2018


lembro-me
do cheiro das flores e dos matos dos verdes bosques que os outonos tornaram húmus e chuvas
dos meus pés nas primeiras lamas e o subir das águas e a força das correntes de um rio que se fez mar
da saudade perdida
agora que a terra avistei.



O galo cantou(me) duas vezes esta manhã, parecia estar à minha espera, passava pouco das oito e meia, eu tinha acabado de bater a porta de casa, uma branca luminosidade trespassava os vidros da clarabóia do edifício, na rua olhei para todos os lados como se o galo me estivesse a ver de um lugar distante e circular, tudo à minha volta está a cintilar.
Salto da gazela - sonhos de uma curandeira

segunda-feira, 12 de março de 2018



o sino chama, retine a hora, a manhã é a minha veste, o trinco de portas a soar no peito, abrem-me as brumas e o aveludado das asas,
espero-te
o relógio despe-te, da nascente vens.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018



estreita-me a montanha para me desprender o laço da terra
no meu corpo e sangue o requebro e a saudosa respiração

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018



no princípio era o ouro.




piedosa é a noite 
que no escuro me refunda sem dó 
e me encontra sem sombra de mim.






quando no coração entra a vida 
viver é indizível.



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018



cheira a noite, ao invernar da semente, recolhida, não adormecida, quente
cheira a noite a desenhar-me jejum e cosmogonia, a romã me pressente.


| premonições de Perséfone |


estou corpo, em órbita de partidas, roso da negrura, os anjos rolam-me à estrela, sou poeira dourada suspensa no movimento que me pausa infra, supra,
intra.


| em solstício |

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017



no silêncio não há morte.


Ele disparou-lhe para o pescoço uma substância que a fez cair, sem forças nas pernas. Arrastou-a para dentro de uma pequena sala, o chão era frio, ela não lhe via o rosto, ele ajoelhou-se e, a segurar-lhe delicadamente na cabeça, transmitiu-lhe ao ouvido sem proferir palavras um pensamento que a deixou atordoada, e saiu depressa. Era uma casa no cimo de um rochedo, com vários patamares e muitas escadas. Quando ela recuperou forças foi a pé até ao mar, pelas rochas, que íam aumentando em altura à medida que se aproximava das águas, o que lhe tirava a vista do mar, só ouvia o som da rebentação mais profunda como se estivesse imersa. Agora a rocha onde estava tornava-se escorregadia e mexia-se para baixo, o mar crescia em ondas diáfanas cinzentas ameaçando tragá-la, medo,
num instante era manhã.


| Salto da gazela - sonhos de uma curandeira |


quinta-feira, 30 de novembro de 2017


Ele trouxe-a à corte, entre mulheres a apresentou, havia uma carta escrita, conspiradamente no lodo enterrada, e uma pirâmide, nos seus corpos gemia imponderável uma sede de sol, estava escrito, amar-se-iam divinamente, saber-se-íam imortais cedo demais.


| os céus de Osíris |


Não vou dizer-te o que me dizem os céus, Espero-te. Podem cair todas as folhas desta árvore, não chorarei não teres ainda chegado. Seguirei a dança das folhas douradas no ar, estarei nas chuvas e na nudez do inverno, amarei a árvore.


| as manhãs de Penélope |

sexta-feira, 20 de outubro de 2017



|  húmus II  |

Quando tocaram o solo já não eram folhas mas pássaros.



| húmus |

num certo tombar do sol, numa certa cidade de sol, numa certa cidade de anjos, penetrou no coração da árvore da vida a anunciação da queda de duas folhas, uma graça, foi na exacta hora em que os dois olhares antigos cruzaram a estrela que esta lhes retribuiu luminosa o solo de uma floresta, de onde partiram juntos de mãos vazias e acarinhadas para as suas terras lunares, a estrela circulou-os em todos os seus cantos, santos, plantas, odores, águas, cumes, ruínas, feridas,
nus,
nus.

sábado, 23 de setembro de 2017




A ti dou a refulgência dos fundos da terra, o meu morrer-nascer,
nosso dentro, floresta e respirar,
a ti dou o tempo, e o cio das feras,
e a doçura.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017



Cabra montês

Vou no ditado dos sopros, a morrer, talham-me a fé e a terra, aqui, neste mosaico agreste, a cada passo aos altos cumes me toca a rebate a hora pia, a cruz do sagrado ministério do corpo, onde as águas ascendem aos pássaros e à sede e as penas e a leveza se confiam à superação do sal e do infinito, aqui, onde sobre as pedras quentes me estendo.

quarta-feira, 26 de julho de 2017



Noite em chama, por esta vereda passo, altos muros, altas árvores, ao alto o céu, percorro-a, ao fundo o portão e o guardião, corro, acorrem as árvores, tocam-me os ombros, abrando. No limiar viro-me, tenho as árvores a olhar para mim com olhos de pássaros nocturnos, volto-me para o portão, avanço, e aos primeiros passos para fora outros tomo para dentro. O bater metálico do portão sela-me as sombras dos tempos. Aqui fora dou passos largos sobre a calçada, cá dentro pausados, pés nus sobre a relva; aqui fora a noite quente, aqui dentro o húmido entardecer, os pombos, os melros, os pardais no seu canto; agora que é noite atravesso a estrada à luz dos candeeiros, e aqui estendo-me na relva, o azul claro pende sobre as árvores e o rio neste recanto.