Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



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quinta-feira, 18 de julho de 2019


Havia dias em que sabia que o olfacto lhe ía matar a inocência, benzia-se antes de sair de casa, os cheiros levavam-na a limiares, apareciam-lhe mundos inquestionáveis, desaparecia de um e de outro em redemoinho, uma angústia.

segunda-feira, 8 de julho de 2019




o Tempo , e voltar

Antes de abrir os olhos eu não estava aqui. Voltar aqui foi uma subida, pelo escuro, primeiro surgiu um som, depois uma imagem que veio pelo som, depois o corpo, o meu, e logo a onda do mundo me voltou onde sou particularmente animada. Observo que o mundo progride do som ao corpo, e finalmente à luz, e que aparece e desaparece, que sobe e desce, que abre e fecha, que do escuro se faz luz e vigilante o sono, que da indiferenciação brota a diferença. O mundo será o mito ou o símbolo desse destino de onde se cai para se voltar, que nunca se perde. O tempo é-nos recobro do espanto de nos vermos invisíveis ou, o que é dizer o mesmo, mortais.
O que aconteceu e não aconteceu para eu voltar. No momento em que o mundo me volta torno-me submundo, entrecortada a luz, e sei, quando desescurecida, que voltei a cair, que não sou de aqui e nem de além, e nesta inquietação me sossego.


terça-feira, 18 de junho de 2019



a correr nos atrasamos


quarta-feira, 24 de abril de 2019



Este embaraço de refrearmos o rio, que nos leva somente para nos selar o ir, descobre-nos, desfeitos, à vista de abismos, movimento e eternos. Este medo de não libertarmos a morte, de sermos as correntes incertas, para, enfim, o salto, amoroso, imperdível, original, nEssa inconcebível plenitude




terça-feira, 16 de abril de 2019



todos os céus, todos os pássaros, os anos de cela, os anos de ti, a espera, o morrer, a cada amanhecer me desconheço






terça-feira, 5 de março de 2019






ao corpo e à morte por vastos e inconcebíveis nos prendemos a imaginá-los

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019


é no impossível que tocamos a eternidade




Deixa morrer a vida para poderes viver







Por estas colinas a noite é a pérola do sol, juntam-se os pássaros ao rosar dos céus e no rio uma nocturna inquietação promete penetrar a manhã, lúcida, as árvores são o coração dos sonhos, macio da tempestade, a noite arrisca adentro o homem o longe e o sangue com a força dos tempos, das leis, cobrem a cidade, as brumas.


segunda-feira, 23 de julho de 2018



com a mesma força com que me preenche me esvazia, amarra-me e devolve-me as cordas, este recobrado dos magmas início.

terça-feira, 3 de julho de 2018



O mundo sonhado e inexistente, o torrencial anseio, aperto, grito e mudez, paz, glória e desespero, a janela, a casa e a rua, Álvaro e todos sem camisa, a arrepiante irmandade num divino poço para o abandono ao universo sem ideal nem esperança.

| Tabacaria revisited |



Clareia a manhã, regresso ao canto dos pássaros, os melros são os primeiros a aparecer na calçada, o galo ainda dorme, as tílias estão ao rubro, inebriantes noite e dia, o tejo e o céu rosam as brumas na forja do sol que agora apareceu incandescente e sobe,
quieto, quieto.





o tempo Aparece-me, surpreende-me numa inocência de espírito, para me levar às mutações, quero dizer, aos tutanos plásmicos das tessituras, quero dizer, ao tremendamente magistral corpo, desfere-me as transcendências de qualquer angústia a que me converto, desprende-me as alegrias.


O mar já embala a pele da serpente, veio buscá-la às areias para as águas cristalinas, num sonho indefinido.

terça-feira, 12 de junho de 2018


sobre o tampo da secretária, tinta e penas, folhas de papel, envelopes, cartas lacradas, o cheiro de paisagens pela janela, os sonhos, o desejo, e a noite, cortinados afastados, céus encobertos, e o depois.

quarta-feira, 10 de maio de 2017



Vénus prostrada, corpo deitado ao fragor da sombra, febril, os olhos abrem as cortinas sobre a montanha, ali no cume, onde o gelo ao sol promete o cair das lágrimas e o regresso das árvores, das flores, das fontes e dos pássaros, trémulos e doces os lábios no bramir-lhe a lua.

terça-feira, 9 de maio de 2017



sonhamos fundos, escuros e mansos, de memória perdidos
acometidos silêncios acordam-nos corpo
e montanha
no cúmulo do sonho acendem-se-nos origens, cintilantes, da noite esquecidas
e, então, lembramos,
lembramo-nos,
o olvido.

Destilação

A borboleta já lhe tinha dito naquela madrugada, na linguagem das entranhas na batida do tempo, o corpo franqueado ao céu. Tratou-se de um vero desencanto, não de uma desilusão, tão pouco das penas de que se descobria. Era um bendito e novo canto.

quinta-feira, 20 de abril de 2017


A passagem estava escrita.
Nessa manhã, após a leitura, partiu descalça, e seguiu a borboleta branca, eram muitas, não tinha como se perder, até que desapareceram. Tinha chegado à escada talhada na terra.
Começou a subir, a escada era como uma serpente enroscada à montanha, à medida que subia escurecia rapidamente. Subiu até ao último degrau que dava para um cume suspenso, de onde provinha uma luminosidade dourada e um cheiro encantador, profundo, a deserto.
Ajoelhou-se, a olhar para cima. Tinha sede. Via silhuetas, ondulantes, as mulheres segredavam a sabedoria, e os homens a eternidade. As suas vestes eram translúcidas, os cabelos dourados, os corpos leves, a morte tinha-os elucidado de tanto lhes pregar a vida, em severa misericórdia. Deram-se as mãos, agora eram uma coroa branca, e o cume côncavo, como um cálice.
Vai, chegou-lhe ao peito em amoroso eco.
Levantou-se, e começou a descer pelas vertentes, a escada desaparecera, amanhecia, a partir dali arriscou todas as paisagens, perdendo-se acertadamente.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

incenso


Natal é sol que acerta e se pena
vigoroso aperto, lavra com tal brilho o choro
é ouro
é mirra
e fome ! de ser perfume infinito de vez .