Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

na bruma o fogo
eco do coração
sulca nos sonhos o brilho
na árvore os veios
nos muros os céus

domingo, 23 de dezembro de 2012

Em tua dor te louvas, lavas, larvas
- abraço de soror.
na mais delicada solidão
no mais sombrio recanto
larga o facho da mentira
- poção solsticial .
todos os passos ensaiam o círculo
a queda natal é um perigo de luz
na surdina de dourados sacrifícios
a afiada espada, o candelabro
o espectro dos amores,
ouvem-se tambores
o canto, o grito, 
silêncio, o cheiro da terra.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

alvorecer do ultimar 
na carne e osso
o culminar da dissolução 
no lugar do corpo, rebento ao relento 
- pur'amor nascido.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Na profundidade de tudo se desaparece.
não há fragmento, viagem ou miragem, no silêncio, véspera de tudo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

estrangeira sou
como a sombra da árvore
que é árvore sem sombra 
- nos primórdios.
musgos, líquenes, heras
restolho pelas serras
rocha, rochedo, medo
árvores, trepadeiras, teias
bagas, louro, ouro 
no sangue das terras as trevas e o fogo -
viagem e abrigo, o inequívoco perecer, o despertar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

na antecâmara da recôndita verdade
estala a pérola.
Se eu fosse vivo, gostava de viver aqui - disse-lhe o pai no cemitério, noite de finados, silêncio nas luzes sobre as lajes, uma vila iluminada.
E tudo o vento traz.
range o soalho, encontro marcado
beijo na cripta, o peito,
caldeirão, sombras no caldo, fumos
na invocação dos idos, húmidos
o cheiro de néctares, soro, santos
fêmeas, fome, fontes 
- nos subterrâneos dos elísios.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

é noite e o pássaro não dorme
da longínqua aura um regresso
ao irrompido silêncio
o pássaro não dorme
cinge o fundo, a pausa, o fôlego.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

. em todos os lares
há céus que abrem janelas
vozes regressadas, visitas douradas
alimento, 
tormento,
amor, 
partidas e promessas. de anjos.

( à nossa Penélope desaparecida )

sexta-feira, 12 de outubro de 2012




estátuas ao sol
aguardamos mares, marés, partidas
tempestuosos caudais
sem velas, redes, verbo e segredo 
somos sal, corpo, vagar
corpo e vagar
ante a cruz tumular, o céu, o altar.

in Catedral de Barcelona

terça-feira, 4 de setembro de 2012

tocam os sinos, 
os astros
o rasgo do tempo
a respiração do corpo,
eis o sol de todas as chuvas
o esconderijo de todas as sombras
a rega de todas as sementes, 
a reza de setembro.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

pés descalços sobre as tábuas
árvores guardiãs das vidas dos mortos, o sangue
minha avó, minha avó,
minha avó de Soledade.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

ela vestia-se de vento
de um negro dourado
de um raio de luz suspenso e obscuro
olhar mariano, vestal ardente
abeirava-se das falésias
as marés relinchavam 
sulcando todos os areais 
vingando as primordiais.

domingo, 19 de agosto de 2012

Faz tudo certinho, à margem !
escuto
na vadiagem da manhã
minha montada
as pedras da calçada
sob o céu azul, luminoso
lacrimoso
na penumbra a minha sina
minhas mãos
do barro a cúpula erguida
minha espada na rocha
- canta o galo ao canto do cisne, 
doce tremor

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Nenhuma palavra celebra
a profusão dos sopros
na consumação do destino.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

a Via(gem)
 
em toda a partida se reúne e realiza
a verdade primeira e última do Início
na fundura das impossíveis vagas se cura
a ferida do eterno retorno.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

janela aberta,
o sol da manhã
raia um trilho
a gata
pousa
os seus papéis,
todos,
e larga,
todas,
as ideias,
e segue o trilho
até à janela
salta para o parapeito
fronte iluminada
olhos fechados
e a gata encontra,
encontra o mundo,
ama-o.

- sonho d'amor
in diário do mundo, o gato amado.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Poderão os sopros e as estações desaparecer 
mas não o canto da graça na aparição dos silêncios.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

no fogo solsticial, a suspensão em pleno, contigo, irmão sol
lavas-me,
estendes-me o rubro fruto
e anuncias-me a subida pelo ventre da montanha, 
os fundos douro.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

 

anoitecer no deserto

quando a mágoa atinge a suavidade
o céu finalmente escurece
e a noite pousa em silêncio;
e é do lado de dentro do que assim se abisma
que irrompe um sopro fundo
que vem fundo abrir no peito a rosa.