Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ao alto, na cripta, um cavalo
percorre os prados que nos reúne a todos, livres, num cordão de bastões

Catedral de Santiago de Compostela

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Em todos os rumos
os ventos no levantar da tempestade
a cada passo no deserto
a consagração à mais íntima e funda quietude.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Preserva o laço, seja qual for o desenlace.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

É preciso uma certa bruma para não perdermos visibilidade.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010







Pelos caminhos enlamaçados o sol encontra as penumbras, a pedra e o mundo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010


Pendem rubros
e soltam-se ao rumo dos sopros todos os gestos antigos na sábia renovação.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Mater.monial

Pousados soberanos
reparam em mim, pousada contemplando-os,
a jarra de flores, os candelabros, as arcadas;
em nós a doce respiração e a fulgência da noite com que tudo se casa.

sábado, 23 de outubro de 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010


Ao meu Irmão Virgílio Augusto

Em teu jubileu meu coração sangra e se consagra
por mim tu és e eu por ti
nestas terras em que nos errámos somos sem jamais nos perdermos
no infindo amanhecer que nada distingue nem separa.
Meu Irmão.

sábado, 2 de outubro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

às portas do templo
cai o xaile dos ombros
olhos ao alto
joelhos ao solo

no céu e na pedra
oras e saras.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

a arte de morrer sentado


Anunciação

do ventre primordial és herança
em tua voz no tanger dos silêncios a dos avós
pai e mãe teus irmãos
filhos teus anciãos
és no coro corrente sem história nem presente
a tombar do perecer que te dá o nascer
no rosto mil rostos
no corpo um só sopro
és no coração a im per ma nên ci a

senta-te
no fundo e à margem do murmúrio tangente,
no canto o espelho, o mensageiro
e a saudade que em longe e abraço se mata.
O que morre desperta-te.
senta-te
em tua morada anunciada.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010



já amanhecia
antes,
muito antes da manhã preceder a noite que a procria
e assim no escuro, tão obscuro
claro me parecia tudo o que não via.

cripta

na semente funda e silente da rosa
uma voz revela
escuta
e esculpe tua pedra
na recolhida concavidade
o que no escuro da luz se colhe
é o que das pétalas se evade.

domingo, 5 de setembro de 2010

sábado, 4 de setembro de 2010

Mãos que se entrelaçam,
lugar ermo de rendição imediata aos confins.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

em setembro
desaba no sol o deserto
os frutos são sinos a rebate
há grande alvoroço no coração dos homens que entardecem
e se recolhem nos campos
e em rosário juntam as contas
que cada um é conto dos montes que vão guardando

domingo, 29 de agosto de 2010


O tempo é a eternidade.

sábado, 28 de agosto de 2010

Antepassados oradores

Na serra perdem-se os caminhos
saltam-se muros
pelas pedras avança o rio
que é o céu correndo destinos

por entre musgos e minérios
as árvores são outonos
no coração o tesouro
de falos em flor os patronos

no templo, forno, gruta, anta
se alquimizam rostos sem rasto
a escuta dá-lhes o negro e o abrigo
e no denso nocturno cada gesto é oração
e do fundo onde é fundo irradia o Abismo.

(Convento dos Capuchos, ao entardecer)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Guardar na escrita, como num abrigo, suspiros e suspeitas ao vento,
maravilhas da solidão no deserto estranho do próprio íntimo a ser percorrido.
Tudo se perde para o reencontro.
















quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Setembro está a chegar.
Nas tardias noites de Julho e nas manhãs de Agosto tardio se anuncia.
Todos os entardeceres são setembrinos. É o sete a operar,
nas uvas o pintar,
nos figos o melar, na alma o dealbar.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Agora que o sol te encontra a fronte
é que se vê como nasce a noite nas dunas ao vento.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Claustro

Ardem-te os olhos de fogo e adeus
o que derramas é da coroa
o que te cobre rosas vermelhas, ao mais fundo vale dos silêncios,
leito, sangue e hóstia no teu íntimo e único sacrário.

Ouras no templo, cálice, cripta
és o arquitecto, a espada, a cruz e a pena
e és virgem, viúva e benta.

Secreta na solidão as rosas ofereces
és a saudade na espiga
és o claustro,
e nos oito raios perdida te reencontrarás Pomba.

(Claustros da Catedral de Salamanca, ao entardecer)
Quando a morte nos acerta
e se nos alvorece
sabemos a não memória
sabemos tudo.

iniciação

despe o manto em que escreves a vida
e volta-te.
prosseguirás sem leitura;
devolvido à nudez cantarás a lança disparada dos sonhos
e o uivar dos lobos nas noites, cheias, de sombras;
desvelarás as plumas.
onde sobrevoares aterrarás,
o teu olhar atravessará tudo o que vê
penetrarás tudo o que tocas
e nessa travessia não saberás regresso.
de paixão primordial

Aos primeiros cabelos brancos
seu coração rejubila

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O que se inscreve do roseiral
é o que me empurra para o derradeiro perfume.
A cada olhar um pouso
uma aparição do que ouço
pela mão me traz a sombra
e o rasgo, um dorso do qual caio
dou por mim outro caminho.