Luíza Dunas (Luísa Sousa Martins) nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



Salto da Gazela






Salto da Gazela
- sonhos de uma curandeira


noite na estrada, cavalos correm, rostos vermelhos, troncos nus, no deserto o poço, húmidos chãos, feridas mãos, no canto dos pássaros nocturnos o som uterino, ao grito avistam-se as brumas, salta a gazela.


***


Aquele rio onde vais nua deixar os sangues que te escorrem pelas pernas até aos pés, tem na outra margem a semente de vastas pradarias, o olhar dos lobos, florestas que anunciam as mulheres que par(t)em.


***


Menina na apanha das amêndoas, das maçãs, sobe às árvores, cheira as frutas, o melro na alegria da manhã, o esquilo salta, caem as primeiras chuvas de setembro.


***



Vera. Viver é morrer muitas vezes, assim se vem ao mundo, foz dos primeiros fôlegos que o mesmo é dizer dos últimos. E sim, há luz, há tanta luz que nos precipitamos a viver a morrer por não se tratar o viver de vida ou de morte.


***


Senta-te aqui. Desenha na terra um homem calvo, procura-o e desenha-o sem olhares directamente para ele. Depois volta para contares os teus dias doentes. Assim fez, fechou os olhos, e encontrou o homem, viu-o reflectido num rio; desenhou os primeiros contornos da cabeça, calvo, não muito. Depois abriu os olhos e completou o corpo, nu, numa linha ininterrupta a partir do pescoço, o ventre grávido.


***



Subi a montanha e vi a nossa cabana devastada pela tempestade. Contemplei os destroços, descobri os nossos ossos, e percebi a carne e o alento da profunda inexistência.


***

O falcão sobrevoa a floresta de folhas douradas. O outono amacia-lhe o voo, oferece-lhe o olhar guardião do que se esvazia. O vento docemente o embala até ao vendaval, folhas, castelos e violinos no ar, e o mar, nas asas, sangue e deus.


***

A jóia de Athena
A justa medida trouxe-lhe na noite o luminoso vácuo, total transparência do sonho. As
asas da coruja teceram-lhe a urgência para auscultar a lua azul crescente e no pouso do
mútuo olhar viu-se a levar a mão à orelha esquerda. Baixou os olhos, tirou o elmo,
ajoelhou-se, Perdi o brinco !


***

Égua
Ela já lhe ouve os cascos a revolverem o leito do rio, homem, vertiginal chama, nestes altos
cerros os alecrins e os cardos, jóias perdidas e florescidas, fragas, musgos, aguarda-o. Os
húmidos desventram-lhe as trevas, a entrada na cela, anuncia-lhe o corvo a hora, ela ajoelha-
se, atrás de si o chegado, salivante, hálito quente, toma-lhe o colo e morde-a ! 
pó 
luz 
abismo,
transfigurados, as rosas.

***

Sonho a humidade nos musgos, os frutos, as árvores a cobrirem-me a nudez e teus
beijos; sonho as raízes na terra e no ventre a seiva do magno silêncio; sonho folhas e
ramos, flores, alentos, fogueiras, cinzas, sede e fome; sonho as minhas mãos sobre o teu
peito, os magos, os veludos; sonho a brisa, o oráculo na terra dos pássaros, vejo a queda
e o erguer. Sonho que me sonhas no erguer, nascente, aurora. O erguer do sol que fende
a sombra.

***
longe vão as águas para voltarem ao entardecer, douradas, e nos juntarem ao sol, vasto, e à
noite, e aos anos, com o que de inelutável nos tocamos, manhã e chuvas, entranhadas.

***

O mar já embala a pele da serpente, veio buscá-la às areias para as águas cristalinas, num
sonho indefinido.

***


com a mesma força com que me preenche me esvazia, amarra-me e devolve-me as cordas,
este recobrado dos magmas início.

***

ousas não te despedir, sim, a morte amadurece, e espera-te, não para te levar, mas para
te dar passagem, doce, como só o fim de uma miragem, não sei se do lado de cá se do
lado de lá, Salve Regina
 
 
***

Tive a sensação nos lábios do beijo na tua pele, pensei que sonhava acordada, afinal eu
estava acordada no sonho, encostada a ti, olhávamos o céu; sussurraras-me junto ao
ouvido esquerdo que tinhas lançado as cinzas em cima da cama, o soar do teu coração
tocava todo o meu corpo, disse-te que as cinzas na cama me parecia um altar da fénix.

***

piedosa é a noite que no escuro me refunda sem dó 
e me encontra sem sombra de mim.


***

premonições de Perséfone
cheira a noite, ao invernar da semente, recolhida, não adormecida, quente
cheira a noite a desenhar-me jejum e cosmogonia, a romã me pressente.

***

os céus de Osíris
Ele trouxe-a à corte, entre mulheres a apresentou, havia uma carta escrita,
conspiradamente no lodo enterrada, e uma pirâmide, nos seus corpos gemia
imponderável uma sede de sol, estava escrito, amar-se-iam divinamente, saber-se-íam
imortais cedo demais.

***

Não vou dizer-te o que me dizem os céus, Espero-te. Podem cair todas as folhas desta
árvore, não chorarei não teres ainda chegado. Seguirei a dança das folhas douradas no
ar, estarei nas chuvas e na nudez do inverno, amarei a árvore.

***

| húmus |
num certo tombar do sol, numa certa cidade de sol, numa certa cidade de anjos,
penetrou no coração da árvore da vida a anunciação da queda de duas folhas, uma graça,
foi na exacta hora em que os dois olhares antigos cruzaram a estrela que esta lhes
retribuiu luminosa o solo de uma floresta, de onde partiram juntos de mãos vazias e
acarinhadas para as suas terras lunares, a estrela circulou-os em todos os seus cantos,
santos, plantas, odores, águas, cumes, ruínas, feridas,
nus,
nus.

***

Ela entrava no mar, a ondulação convergia para si de todos os lados, as várias correntes
puxavam-na pelos tornozelos, as ondas não rebentavam, mantinha-se de pé com
dificuldade, mas avançava, prometera imergir, virou-se de costas e largou-se, a rir, para
das águas se cobrir. As ondas cresceram, do areal uma voz chamou-a, ao erguer-se o
mar era um longo manto que trazia sobre os ombros. Chegada ao areal sentou-se a olhar
os pés, e começou a cantar, era uma canção de Aquiles a cantar Hermes.
.
***

Vénus prostrada, corpo deitado ao fragor da sombra, febril, os olhos abrem as cortinas
sobre a montanha, ali no cume, onde o gelo ao sol promete o cair das lágrimas e o
regresso das árvores, das flores, das fontes e dos pássaros, trémulos e doces os lábios no
bramir-lhe a lua.

***

Artemisa quebra-se agora,
quente como se acarinhasse as hastes de um veado ou os ramos de muitas árvores, olhar
cintilante,
sonha as pernas pelos areais e falésias ao redor dos polens da lua do sal da nua pele, as
ancas; sonha aos ventos o azul, o canto do tempo de cima a baixo, sonha os pés
suspensos na maré e no chão, e os lábios em segredo aos anjos pela boca de Hermes.

***

Sísifo a cavalo aos ventos da noite, os seus olhos luzem ao céu, tez da terra da montanha
sacrificada, no dedo o anel da aliança caída,
ah, o areal,
pés agora na enseada azul, todo o corpo, o sal nos ombros, fé !

***

Quando o deito, o corpo é uma memória, um baú esculpido a cheiros e jóias entes e
sangues; quando é o corpo que me deita, sou o lençol branco sobre o baú sacudido ao
sol, passa-me o tempo, como se este tivesse sido um sintoma de abstinência de respirar
ou estátua pulverizada.

***

Diamantes
acordo o morcego, há um disparo de luz que nos chega do céu da noite, corremos
espantados por entre os troncos e árvores da floresta, abrem-se clareiras ante os nossos
olhos, de um branco não suportável, caímos e fechamos os olhos ao gritar
estou numa gruta, prostrada, olho à minha volta, é um nicho de alquimista,
cheira a suor de lobos, entra um falcão, cela a gruta, olha-me sabiamente, estou
perfumada de cios, sinto o fôlego de vários fôlegos, em feroz ternura.

***

Escrevo em noite. Escrevo medo. Vejo a noite do medo, o tremor da alma, a deriva do
corpo. Vejo os anjos sentados ao meu lado, olham para mim, inexpressivamente
serenos. Guardam-me e aguardam que me sente eu a seu lado. Olho para eles e choro
na certeza de apenas poder ir ocupar o meu lugar, e vejo-me impotente, de uma solar
impotência.

***

Por ali andava o cavaleiro, esquecido das cinzas, o sítio era brisa e espera. A morte não
se distinguia da véspera, o caminho não saía do mesmo lugar - como no paroxismo da
sede num deserto em que todas as linhas do horizonte se tornam iguais ao ponto,
prodigiosamente.
Isolda, Isolda.
O mais era poção de chuva suspensa.


***

Mulheres que acordam com os lobos
na matemática misteriosa da esfera é o encontro que conta, uma indeterminável
simultaneidade a tecer o imperativo desencontro, pura respiração. O céu verte assim os
sopros arcanos, as perdições medicinais, os mares e as marés, os bosques e as árvores,
os sóis e as luas, os gemidos nas noites virginais,
e o olfacto.

***

no dorso da baleia
vim a ti, irmã de profundis, no teu coraçao está o meu coração
ai
sinto as narinas grutas batidas de mar, os ouvidos a surdina destes fundos, as têmporas
rebentam-me as costuras do sangue, morro-me, elegia-me teu neptuno canto, leva-me
em teu dorso ao areal.


***

Olhos na crista da falésia, na escarpa vigilantes, fixam as quedas do abismo, o cheiro de
sangues nos interstícios das ruínas, areais levados pelas marés, aqui os pássaros,
guardam entre as vozes dos tempos o entoar do mar, a canção das perdas e dos
vendavais, e mandam as correntes aos sonhos do azul, para ti, de novo em mim, contra
os rochedos e o céu, corpos assombrados da luz, bálsamos de algas, mãos, as tuas mãos,
os pés, os meus pés, de regresso, a cavalo.

***

A passagem estava escrita. Nessa manhã, após a leitura, partiu descalça, e seguiu a
borboleta branca, eram muitas, não tinha como se perder, até que desapareceram. Tinha
chegado à escada talhada na terra.
Começou a subir, a escada era como uma serpente enroscada à montanha, à medida que
subia escurecia rapidamente. Subiu até ao último degrau que dava para um cume
suspenso, de onde provinha uma luminosidade dourada e um cheiro encantador,
profundo, a deserto.
Ajoelhou-se, a olhar para cima. Tinha sede. Via silhuetas, ondulantes, as mulheres
segredavam a sabedoria, e os homens a eternidade. As suas vestes eram translúcidas, os
cabelos dourados, os corpos leves, a morte tinha-os elucidado de tanto lhes pregar a
vida, em severa misericórdia. Deram-se as mãos, agora eram uma coroa branca, e o
cume côncavo, como um cálice.

***

A vida é já o silente grito de um pós-terra. De um depois que é antes, presença original
rebentadora !

***

acorrenta-me a serra. 
acorrenta-me à serra.

***

O melhor sitio da terra para se esconder e morrer pareceu-lhe ser aquela gruta no alto da
montanha. Artemisa perdeu as feições, tornou-se barro, lama seca, de um vermelho
negro, as costas com veios fundos, peito escavado. Passou anos curvada e desaparecida
em seu perecimento.
Foi encontrada por Perséfone na noite que esta atendia ao grito da primavera a chamá-la
para o azul da manhã e escolhera sair por aquela gruta pois dava para um céu vasto.
Perséfone segurou-lhe as mãos e deu-lhe metade de uma romã, rubra, Artemisa sem
levantar a cabeça. E ali ficaram silenciosas a olhar a romã, primeiro, e depois, a hora, a
hora que chegara, no átrio da gruta que se abria para o azul luminoso. Artemisa levou
aos lábios a romã, choraram-lhe os olhos visceralmente, viu a floresta e os pássaros,
tomou-lhe um instinto, começou a correr pelas vertentes, entorpecida mas
veloz, um fumo fresco batia-lhe nas faces, viu uma anciã, de costas, de lenço à cabeça
atado ao pescoço, um homem a voltar-se para a ver, uma criança muito pequena a
erguer os braços para o colo de uma mulher vestida de branco, não podia ver quem
eram, surgiam e desapareciam, a cores preta e branca. Por fim, o leito de um riacho a arrepiar-
lhe todo o corpo, as línguas doces dos cervos nas suas costas, as cores das flores a raiar
e uma ursa a apontar para a lua do outro lado do sol. Artemisa apenas se lembrava de
meia romã, rubra, e de umas mãos noite quente azul a clarear.

***

Perséfone retirava-se todas as manhãs para aquela gruta à beira rio. Sabia-se que era uma
gruta pois dela falava ao meio dia mas ver ninguém a via. O rio sim, viam. E dele ela não falava.
Este rio tinha a corrente e o ouro que vingavam em cada pepita vermelha das romãs. Ao meio
dia, Perséfone sentava-se à beira do rio, a ela se juntavam as lágrimas dos olhos dos homens e
das mulheres chorando os sonhos vislumbrados nos assombros. Entreolhavam-se com o corpo,
entreajudavam-se a despir-se. Ao meio dia para estes homens e mulheres caía-lhes a noite,
não por falta de luz mas por via da luz. Entreolhavam-se com o corpo. Era esta a senha. Era
este o milagre da nudez. Por entre as romãzeiras tomavam-se de silêncios.


***

Quijote
Por aquelas planícies do oráculo, Quijote combatia brancos mensageiros. Dulcinea nele
morava. No centro do peito lhe pensava a onda concentrada que não rebentava, um tormento
fecundo de inexpressável sentida dor. Fecundo porque o matava.

***

Alquimia
Era quando lhe corria de feição que o Alquimista sentia uma potente adversidade, uma
mutação, diria, porque se lhe enegrecia imponente, majestosa, até embranquecer. Não lhe
conhecia forma, apenas o reaparecido rubor, respirava-o, amor. Murmurava, extático, ouro.

***

O desejo de Apolo
Avistou um campo de girassóis e logo um rio estreito ladeado de densa floresta, o oráculo
pronunciara sete, subira-lhe o nevoeiro, ajoelhara-se para ver. Sete era o número que precedia
a revelação, uma encantação. Como pedra que sela uma gruta, Apolo levitou, desprendendo-
se ao anelo de sombra. 

***

Parsifal encostado à macieira
aguarda-te de cálice na mão, mergulhas ao fundo nas águas do lago
unes-te à espada na rocha magma forjada, ressurges em brumas noiva vestal

***

inclino-me
desenrolo a minha voz mumificada, deponho todos os invólucros
aqui estou entre vós, irmãs árvores, livre e estrangeira na transparência do silêncio

***

a cada olhar um pouso, uma aparição do que ouço, pela mão me traz a sombra e o rasgo, um
dorso do qual caio
dou por mim outro caminho.

***

o que se inscreve do roseiral
é o que me empurra para o derradeiro perfume.

***

a miragem do tempo confirma a sua passagem, o passado está presente a tempo de ser agora,
porque é tempo agora de ser nesse tempo, que não se foi, que é guia para futuros passados, a
serpente vai morder a cauda, vai, e está, está, não pela primeira vez, não pela última vez, não
em progressão, não em feitiço ou prisão, não em milagre, realizado o tempo do viver e morrer
os tempos

***

Vou ali reunir com uns antepassados, a ver se me fazem um desenho.

***

Àqueles altos sobe-lhe o vento ao sol e o azul branco do mar, um freio no peito volve-se-lhe
corrente imponente como a que enfeitiça a vaga a arrebatar o destino da terra, e a salga, a
deserta e lhe conta as areias, Antheia beija as flores e os odores e não foge do pássaro que a
aterra sobre céus verdes e lhe arrouba o sangue com mel.

***

Júpiter abriu os olhos, viu-se no lugar do corpo, o corpo, nebulosa de insuportável
luminosidade e negrura, fractal, distância destinada a fronteira, a velhice, para o inteiro,
ressurgido, não regressado, na divina noite, ensanguentado, de si, imortal.

***

Primeiro foi a explosão do areal e logo o mar em tempestade diluvial, veio o abismo e a
urgência da queda, foi a perda, foi a agonia e por fim o choro. Não se imagina o amor, não se
imagina.

***

Antes de chegar aqui sonhei que estava neste lugar. Agora que aqui estou é um outro lugar,
um outro plasma, um outro véu. Este contínuo desaparecimento

***

Ela pinta os olhos dos anjos ao sol, aparece vasto o veado entre colunas, pastor das
brumas por onde somos, na subida, na dormida, no fundir das penas,
em voo de pássaros,
em sopro de sinos,
em douradas e esvoaçantes folhas, doces horas.





















                                                            






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