Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 23 de dezembro de 2014



na manjedoira celeste, em sempiterno presépio, a adoração, ígneas coroas luzem da estrela nascente, núncio do ventre original, oh humores ancestrais, anjos, animais, plantas, terra, águas baptismais, a virgem e o sal, em nossos pés a promessa do altar, Pai-amor, Pão-nosso.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014




na orla do morrer se espera
nos limiares o leve e o bem
as contas do colar ressoltas
alam-se dores pés e amores.
naquela casinha à beira rio me retiro
por estas estradas fora ali é a viagem.

olhámos para o muro, sorrimos um para o outro
mãos pés pernas, e salto, chamámos os melros.


aos olhos sussurram o longe, a baleia, a gaivota, o mar, meu corpo perto.
na efervescência do entardecer o céu uma enseada
baixa a maré, baixa a noite, sobe a lua prosternada.


mulher que sobes as escadas
as gaivotas no céu entorno 
perfume de cactos, palmeiras, buganvílias, 
e mar, 
o mar adentro o areal.


tocam os sinos à transparência do deserto
os pássaros escrevem as glórias da manhã
não há pecado, pecadores, nem desculpas
puríssima, tuas bençãos sobre nosso graal
despertemos em filho na unidade da pomba.
| Catedral de Almeria |


o inefável manancial do deserto.


os melros lá estavam à hora anunciada das chuvas 
recostados, faces voltadas para o céu, benziam-se
naquele arbusto e luzidias pingavam as bagas vermelhas.


invejaste-me,
desejaste o meu lugar,
pois agora aprecia, Damocles.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014


nesta floresta sopram de uma macia lonjura
o saber das marés, do sol, dos pés no areal
algas, aves e peixes, tombo de fundos e sal.


perde-te ao ponto de só te restar o encontro.

Édipo! destino paixão irmão 
sombra da realeza universal
luz entrelaçada em pé ferido
da queda eva fonte femininal
enigma o além mãe e mulher
à antígona trindade nosso pai.

esperas e horrores na torra das horas 
ruínas corpos feridas vidas lacrimadas
das guerras vingue a iluminada deriva
desejadas sejam a nudação e a graça 
inumerável zero, abundância prometida
aos pés, aos pés, terra-ninguém, maria !

sábado, 2 de agosto de 2014



passos para o altar, o alter
sobreiros a cúpula do vagar
ao sol, as almas, à sombra
no quieto a água e a messe.

ao fundo o portão e o guardião.
tu, Irmão meu, minha coroa
de quem nasci e vim morrer
por quem de amor me dotas
dos partos nos antecipamos 
juntos a vida desaparecemos.

a loba abre as narinas à crista das espigas ao vento
na descida ao rio por árvores azul penedos oh alento
os cheiros destas terras e o hálito estival das serras
tentam-na ao uivo nas ladeiras sob a invocada lua.
no corpo e sangue a luz e cálice, 
da vida inexpugnável sou e inascível
o aperto, o dom, o ciciar dos céus, pó.
nudez o corpo, pouso e oferenda
mãos, mudo enleio outono e éter
a noite o beijo nos foge e encobre
violino entre searas una despedida
murmúrios luz vísceras nossa pele.

terça-feira, 8 de julho de 2014


selo das amorosas tessituras,
anunciam astros, anjos e budas
da agrura ao sublime, a sacra via.

domingo, 6 de julho de 2014


ao coração de todos os seres, já !
desbravar o sopro, a morte, o berço.

adentro a serra, fundos veios minérios e lamas
arrebatam ao poente árvores pássaros e penas
de ruínas o húmus, a tocha, a coroa do levante.

de longe o vero é próximo
jaz rei em doce remoínho
prumo, aliança, lua raínha.
deserto a pele seio regaço 
gemido colo mato e seiva
vestal cheiro nimbo mortal
húmida fera o pélago e nu,
de ouro o tempo, o tempo.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

corpo, nuvem macia
rio de mar, à chuva
despida fuga, rendido.
o contínuo milagre de cheiros, verdes e pássaros neste jardim reentorna-me de todos os quadrantes a mira do cipreste: meu altar, meu chão, a transparência incessível com que me mostras e desfazes o tolhimento, a leveza com que me sopras do abismo o reencontro solsticia-me de morrer.

amora branca na sina de um beijo.
pomba branca, infuso fogo
soberano amor florescente.

no esquecimento se banham todas as memórias.

terça-feira, 3 de junho de 2014

a estas rochas sobre o veludo das algas me dou
o cheiro do mar despede-me do corpo, ah deus.
roga-me a serpente os ventos do caminho
assombra-me febril o rumo que me ilumina
não há regresso nem passado nem futuro
na inseparação o pio medo, benta água fria.

terça-feira, 27 de maio de 2014

ao entrar, parto, o parto
pele, minha barca, os pés
no areal da ampulheta, nua
recém-chegada à partida.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

ao descerrar das brumas 
o assobiar do vendaval 
flameja a espada da ísis ancestral
aves negras na senda dos alvores
a foz na voz d'irmãos amores
fogo diamantino, vulcão, 
minha lava, minhas cinzas, 
em todos os desertos, fontes, meu coração 
travessias ao lodo, lótus original.

no rosto a flor de laranjeira,
pólen do tempo impossível.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

na benevolente quietude da montanha
espera inocente, levita o canto do cuco
presságios da imensidão, o esvaziamento.
nos olhos da senhora a subida
prosternação, afilhada erguida,
virginal chama, a ceia, a ceia.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

assim que a filha o avista a sua voz reúne a brisa, os pássaros, os cheiros, o mato, as flores, as cordilheiras, os verdes, o azul, o sol, os insectos, os minérios, as terras, as covas, as represas, as hortas, toda a manhã, todos, no som do p do a do i.

o cuco cuca, tratam-se as videiras, o sol bate as 11, a borboleta branca adeja sobre o faval, o cuco cuca, a pereira, o pessegueiro, a cerejeira soltam das flores prenhes seus frutos, prenúncio de maio, promessa de abastança no fervor das rezas dos campos.
na velação a fogueira da sétima cúpula
círio ao alto adentra o fogo nas águas 
unção dos espíritos febris dos amores
exaltação das feras, retumbam tambores.
desferida a dádiva do amanhecer
comoção no corpo, o golpe da nudez.
pássaros pela majestosa floração 
ramos, pousos, cantos no azular
os elfos, os anjos, no céu a terra 
as margaridas entrelaçam prados 
poças de chuvas, fetos, insectos
no regato a música, luzem ceptros.
por vezes, David, aconchegamo-nos a tristes penitências
por vezes, sabes, alongamo-nos em alegres promessas
e por vezes esgotamos o tempo de revivermos mil vezes
o conspirado adiamento de nos desenganarmos de vez.
brumas amantam o verde mato
jarros e estrelícias humedecidos
pingam azedas e bagas vermelhas
pousado naquele arbusto o melro.
no peito suspensas as sacras águas
baptismo no deserto névoas da paixão
luz eterna, íntima sede, virá a pomba
o sopro da trindade, imortal reaparição.