Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



quarta-feira, 30 de dezembro de 2015


Se te apressas a viver não chegarás a tempo de morrer.


O mistério é uma intimidade. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

natal


nascer é nivelar o tempo ao imemorial,
irromper no instante o sopro que incandesce no corpo o descarnar.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015


despir e entrar, mar 
sal, o corpo trovar
auréola vermelha,
o pélago azul lambe sua cria.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015



a loba cheira os musgos da montanha,
na cópula a nebulosa estelar, árvores caídas
agreste soberania dos céus, das terras, das águas, do cio,
anjos nos odores e vertentes, os nus dos vales e torrentes.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Totem


na nocturna montanha tua majestosa aparição
pelos vales verdes de luar a luz do teu uivar
as estepes, templo ao azul, à terra, ao chorar, 
ao clarume, oh doçura fera, fumo da vastidão. 


sexta-feira, 27 de novembro de 2015


teu rosto é uma esfinge,
terna nocturna de sonho, 

cheiro de abismos, luz
teu coração, meu coração.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015


naquele arbusto os melros esperavam
chegaram as pombas

eles cantaram o pão, 
elas, de saia de roda, vermelha, dançaram as bagas,
toda a noite o fogo e a lua.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015


Aura lunar, o halo da medula
céus e paixão, respirar.


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

ao entrar no jardim
um cheiro a mar
e logo os melros,
e a floresta.


sábado, 14 de novembro de 2015


inclinam-se as árvores,
a montanha penetra as sombras
húmidos verdes dourados sob o azul outonal
encantado mato, as heras, os penedos, os musgos, os trilhos das chuvas.

terça-feira, 3 de novembro de 2015


mar, oh mar, veste que me despe
tuas marés, a lei, meus pés a voar
corpo água, as gaivotas a gritar
mar que me ensinas, e apagas do areal.




Todos os obstáculos apontam caminhos.



sábado, 31 de outubro de 2015


samhain

é na morte a vida de todos os céus
antepassados, oh anciãos amores
em meu sangue os vossos, os ossos, os humores
as fogueiras, os cedros, as macieiras
o fumo das taças, das entranhas, fulgores -
ao rubro nas vénias outonais a aura dos ancestrais.



quarta-feira, 28 de outubro de 2015












Ao primeiro olhar um súbito e iminente limiar, o da anterioridade, interior ao olhar, remoto abismo do alumbramento, a aparição do que não morre. É tão invisível que é impossível não ver.




terça-feira, 20 de outubro de 2015

Sideral, o corpo, eco e penumbra.

terça-feira, 6 de outubro de 2015



mar, mar, veio primal, o sal a mar, 
o mar, da terra o entoar, corpo areal, costa, crosta, gruta
ondas, a coroa, jóias, penas, barcos e sonhos de lonjura
pés nos grãos de areia, pêndulo e sol, números,
e os pássaros.




segunda-feira, 5 de outubro de 2015

calor, o outono desembrulha ao vento o ouro das árvores,
fado entorno, nudez do corpo, amor, húmidos e fogo
doçura, paixão e desprendida.




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Tudo em pausa no sol do equinócio. Só o caniçal dança. E a criança.



domingo, 13 de setembro de 2015

Menina sobe às árvores, apanha as maçãs,  cheira as frutas, o melro na alegria da manhã, o esquilo salta, caem as primeiras chuvas de setembro.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

o cheiro da caruma
gaivota pousada no xisto
aqui estou, Senhora, atende-me ao corpo,
vento, rio, pranto.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015


silêncio,
semente, raiz, seiva, tronco, ramo, folha, fruto, casca, e o mar
nas árvores.


Setembro é uma cegonha.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015


Escrevo porque não tenho palavras.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015


o cabo uma falésia
gaivotas, grito a mar
oradores do sal
rebentação, arcanjo
miguel, o farol.

sexta-feira, 31 de julho de 2015



veado, nevoeiro veloz
infrene teu cavalo
queda e presa, tu, precipício,
o precipício
Senhora !
aparição
azul azul
mudez
mudez

quarta-feira, 29 de julho de 2015

segunda-feira, 27 de julho de 2015


negro luminoso na renda do fado,
ferida ao céu, tesouro desferido,
sete amores batidos a mar, soluçar antebaptismal, anjos no canto do oceano, 

partido o ovo abóbadas erguidas, círios acesos, bastão esculpido,
o pórtico chama, o átrio clama, a solo a ama.

terça-feira, 21 de julho de 2015


sobe a maré, o imo caldo sobre as rochas e o areal, e o corpo,
o mar dentro, as algas, os fundos odores ressudam a bruma e o sol,
o céu respira.

terça-feira, 14 de julho de 2015


rosadas as macias cornicabras, sento-me debaixo da pereira, descalço-me, saboreio, recordo minha avó.

domingo, 12 de julho de 2015


na hora da rega a enxada sulca os veios, desenha as caldeiras e a corrente da água nascente doura na terra as cabaças, as abóboras, as ameixas, os pêssegos, os diospiros, as peras, as maçãs.

as casas morrem.

sexta-feira, 3 de julho de 2015


nascimento, imperativo pesadume da suprema leveza.

sexta-feira, 19 de junho de 2015


baleias, oh anciãs da primordial caverna.

terça-feira, 16 de junho de 2015



na ilha escura do ancestral nascer
cintilam submersas vidas
auréolas nas marés de nuvens.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

tudo progride para a dissolução.


o mar cogita o sol nas dunas
agita a crista das espigas
aventura o céu nos fundos,
nas brumas, vivos defuntos.

sexta-feira, 12 de junho de 2015



No céu, o alpendre e o cajado
joelhos ao solo, oração do corpo,
na pele, sua, asas de rainha nua.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015


O matrimónio é uma via monástica.



É nas folhas que se soltam da árvore da vida que nascem os rumos e os destinos do reencontro numa ininterrupta exactidão, a do zero, derradeira expressão primeira.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

o silêncio deste canto
este choro de nascer
vela que me segura a luz
o dom de morrer

sexta-feira, 8 de maio de 2015

atraso as lágrimas por ti
que ainda não vieste.

sobre as águas da represa as verdes rãs por entre as malhas do manto verde, as borboletas brancas pousam nas brancas flores das couves, a sombra agora dourada como o sol, e o canto do cuco no adoçar da gingeira, da figueira, da videira, do pólen.

terça-feira, 31 de março de 2015

páscoa




treze é no sigilo do coração a visão de virgem selvagem,
o fogo na crosta do pão
na cúspide dourada do templo a oração do beijo
e a pomba na sigla solar do choro de Maria Magdalena.


segunda-feira, 30 de março de 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

passagem




nas horas em que os mortos são vivos,
nas luas de través, nas súbitas penas 
nos inícios finais, altares
clarões desferem a perpétua, os estios, ressurrecta.

terça-feira, 17 de março de 2015

fulgura a saudade
penas ao cantar dos anelos
fumos de vivo fado
sonho, pousos do abraço.

sexta-feira, 6 de março de 2015

vento, nevoeiro, ardor
chave caída no deserto
a queda, as mãos dadas
anjo que me aguardas. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015