o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
Primeiro chama-me, depois apareço-lhe, e depois, aimeudeus, desaparecemo-nos.
| amor de mar |
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Olhos na crista da falésia, na escarpa vigilantes, fixam as quedas do
abismo, o cheiro de sangues nos interstícios das ruínas, areais levados
pelas marés, aqui os pássaros, guardam entre as vozes dos tempos o
entoar do mar, a canção das perdas e dos vendavais, e mandam as
correntes aos sonhos do azul, para ti, de novo em mim, contra os
rochedos e o céu, corpos assombrados da luz, bálsamos de algas, mãos, as
tuas mãos, os pés, os meus pés, de regresso, a cavalo.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
alvuras cobrem as verdes algas como o sol guarda a sombra e as mãos as esculturas dos mares do corpo ante o oceano, o vento, as conchas, os pássaros e a nós, auréolas de navios que passam ao largo para jamais distantes.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
despir e entrar, mar
sal, o corpo trovar
auréola vermelha,
o pélago azul lambe sua cria.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
mar, oh mar, veste que me despe tuas marés, a lei, meus pés a voar corpo água, as gaivotas a gritar mar que me ensinas, e apagas do areal.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
mar, mar, veio primal, o sal a mar, o mar, da terra o entoar, corpo areal, costa, crosta, gruta
ondas, a coroa, jóias, penas, barcos e sonhos de lonjura
pés nos grãos de areia, pêndulo e sol, números, e os pássaros.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
o mar cogita o sol nas dunas
agita a crista das espigas
aventura o céu nos fundos,
nas brumas, vivos defuntos.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
luz entardecida neste nicho, íntimas arcadas a sombra da virgem, o espelho cabelos negros à beira falésia, nesta tribuna o memorial de unos silêncios a vocação numenal.