o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido
Luíza Dunas (Luísa Sousa Martins) nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
na bruma o fogo eco do coração sulca nos sonhos o brilho na árvore os veios nos muros os céus
domingo, 23 de dezembro de 2012
Em tua dor te louvas, lavas, larvas - abraço de soror.
na mais delicada solidão no mais sombrio recanto larga o facho da mentira - poção solsticial .
todos os passos ensaiam o círculo a queda natal é um perigo de luz na surdina de dourados sacrifícios a afiada espada, o candelabro o espectro dos amores, ouvem-se tambores o canto, o grito, silêncio, o cheiro da terra.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
alvorecer do ultimar na carne e osso o culminar da dissolução no lugar do corpo, rebento ao relento - pur'amor nascido.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Na profundidade de tudo se desaparece.
não há fragmento, viagem ou miragem, no silêncio, véspera de tudo.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
estrangeira sou como a sombra da árvore que é árvore sem sombra - nos primórdios.
musgos, líquenes, heras restolho pelas serras rocha, rochedo, medo árvores, trepadeiras, teias bagas, louro, ouro no sangue das terras as trevas e o fogo - viagem e abrigo, o inequívoco perecer, o despertar.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
na antecâmara da recôndita verdade estala a pérola.
Se eu fosse vivo, gostava de viver aqui - disse-lhe o pai no cemitério, noite de finados, silêncio nas luzes sobre as lajes, uma vila iluminada.
E tudo o vento traz.
range o soalho, encontro marcado beijo na cripta, o peito, caldeirão, sombras no caldo, fumos na invocação dos idos, húmidos o cheiro de néctares, soro, santos fêmeas, fome, fontes - nos subterrâneos dos elísios.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
é noite e o pássaro não dorme da longínqua aura um regresso ao irrompido silêncio o pássaro não dorme cinge o fundo, a pausa, o fôlego.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
. em todos os lares há céus que abrem janelas vozes regressadas, visitas douradas alimento, tormento, amor, partidas e promessas. de anjos.
( à nossa Penélope desaparecida )
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
estátuas ao sol
aguardamos mares, marés, partidas
tempestuosos caudais
sem velas, redes, verbo e segredo
somos sal, corpo, vagar
corpo e vagar
ante a cruz tumular, o céu, o altar.
in Catedral de Barcelona
terça-feira, 4 de setembro de 2012
tocam os sinos, os astros o rasgo do tempo a respiração do corpo, eis o sol de todas as chuvas o esconderijo de todas as sombras a rega de todas as sementes, a reza de setembro.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
pés descalços sobre as tábuas árvores guardiãs das vidas dos mortos, o sangue minha avó, minha avó, minha avó de Soledade.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
ela vestia-se de vento de um negro dourado de um raio de luz suspenso e obscuro olhar mariano, vestal ardente abeirava-se das falésias as marés relinchavam sulcando todos os areais vingando as primordiais.
domingo, 19 de agosto de 2012
Faz tudo certinho, à margem !
escuto na vadiagem da manhã minha montada as pedras da calçada sob o céu azul, luminoso lacrimoso na penumbra a minha sina minhas mãos do barro a cúpula erguida minha espada na rocha - canta o galo ao canto do cisne, doce tremor
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Nenhuma palavra celebra a profusão dos sopros na consumação do destino.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
a Via(gem) em toda a partida se reúne e realiza a verdade primeira e última do Início na fundura das impossíveis vagas se cura a ferida do eterno retorno.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
janela aberta, o sol da manhã raia um trilho a gata pousa os seus papéis, todos, e larga, todas, as ideias, e segue o trilho até à janela salta para o parapeito fronte iluminada olhos fechados e a gata encontra, encontra o mundo, ama-o.
- sonho d'amor in diário do mundo, o gato amado.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Poderão os sopros e as estações desaparecer mas não o canto da graça na aparição dos silêncios.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
no fogo solsticial, a suspensão em pleno, contigo, irmão sol lavas-me, estendes-me o rubro fruto e anuncias-me a subida pelo ventre da montanha, os fundos douro.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
anoitecer no deserto
quando a mágoa atinge a suavidade o céu finalmente escurece e a noite pousa em silêncio; e é do lado de dentro do que assim se abisma que irrompe um sopro fundo que vem fundo abrir no peito a rosa.