Noite em chama, por esta vereda passo, altos muros, altas árvores, ao
alto o céu, percorro-a, ao fundo o portão e o guardião, corro, acorrem
as árvores, tocam-me os ombros, abrando. No limiar viro-me, tenho as
árvores a olhar para mim com olhos de pássaros nocturnos, volto-me para o
portão, avanço, e aos primeiros passos para fora outros tomo para
dentro. O bater metálico do portão sela-me as sombras dos tempos. Aqui
fora dou passos largos sobre a calçada, cá dentro pausados, pés nus
sobre a relva; aqui fora a noite quente, aqui dentro o húmido
entardecer, os pombos, os melros, os pardais no seu canto; agora que é
noite atravesso a estrada à luz dos candeeiros, e aqui estendo-me na
relva, o azul claro pende sobre as árvores e o rio neste recanto.