Luíza Dunas (Luísa Sousa Martins) nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

 

 

o que te liberta é conhecer o que te prende

 

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

 

lembras-te de quando te regressaste? do corporares antes de te inteirares? broto a morrer para viveres? de existires a despertar? lembras-te da chegada te tocar a partida? em cada hora pressentida, desejada, erodida, descoberta, esculpida, o corpo reperdido, luz encontrada?

 

 

 

 

Era ali debaixo daquela ponte junto ao pilar onde ele ía pescar, levava a cana e a linha mas não era para apanhar peixe, apenas tempo, apanhava-o no gesto de lançar a linha ao rio, que era dourado, e no sentir a corrente das águas, que são canções imemoriais, a entoar pelas suas mãos a todo o seu corpo. Para lá chegar havia uma outra ponte que tinha de atravessar a pé e cada vez que o fazia o céu escurecia, trovejava e coriscava, a ponte abanava, ele hesitava, depois chovia, o que o acalmava, e continuava até à outra margem, altura em que o céu se abria. Depois descia pela encosta para se ir sentar a pescar o tempo. Do outro lado do pilar, às vezes, estava outro pescador do tempo, sentada, a seguir por outras linhas aquelas águas, lia.
Chovia muito quando se encontravam, quando se encostavam ambos ao pilar, cada um do seu lado, acontecia-lhes um estremecimento.
Havia uma terceira ponte.

 

 

 

O pássaro tinha-lhe anunciado, dois anos antes, muito claramente, Vai e entra naquele templo. Não houve perguntas a fazer, foi só aguardar o sinal, do tempo. E o tempo chegou, o sinal foi um nome, e logo um júbilo, seguiram-se a peregrinação e a hora, tocavam as 12 badaladas do meio dia quando a pedra e as tábuas do chão acolheram os seus pés descalços que o mesmo é dizer toda a sua existência, chegada e partida, tudo o que vira e tudo o que viria estava ali naquela barca, mulher completa, a dissolver-se.

 

 

O lugar do regresso quer-me brisa e despedida e maré, folhas caídas e cabelos brancos.

 

 

 

sentir, olhar e admirar, o que nos respira e solta, este choro da tremenda pertença  



sexta-feira, 24 de janeiro de 2020



Digo-to por palavras, por pensamentos, por silêncios, por tudo e por nada, por espera, por saudade, por raiva, por milagre, por mar, por céu, por anjos, por anos e anos.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020



Primeiro chama-me, depois apareço-lhe, e depois, aimeudeus, desaparecemo-nos.


domingo, 17 de novembro de 2019





a miragem do tempo confirma a sua passagem, o passado é presente a tempo de agora, porque é tempo agora do tempo que não se foi, que é guia para o futuro passado, a serpente vai morder a cauda, vai, e está, está, não pela primeira vez, não pela última vez, não em progressão, não em feitiço ou prisão, realizado o tempo do viver e morrer os tempos



'Ela





na improbabilidade se ajustam contas

quarta-feira, 13 de novembro de 2019


Caiu-me do céu
ou caí eu.



neste lugar borbulhante como as águas na nascente, acerto as horas a zeros, meu sempreIrmão que me eternas.

terça-feira, 5 de novembro de 2019



vou já nesta chuva que me termina e assina, ponho o casaco sobre os ombros, desfazem-se todas as cartas, regressas-me

quarta-feira, 30 de outubro de 2019



reapareço no corpo, o movimento é inicialmente o de uma vastidão a condensar-se, sem se distanciar ou romper
a consciência, não eu, observa-se a estreitar-se, a penetrar-se de uns sentidos, a habitar-se de uns tempos, plásticos, fluidos, que aparentam ser intransponíveis apenas para darem passagem
a outros tempos

| acordar é uma maneira de falar |

segunda-feira, 21 de outubro de 2019



afino das mínguas a saudade, vestal corpo ao sol, casta só até antes de o mar me tocar

| livro das horas |

segunda-feira, 14 de outubro de 2019


difícil é o desengano, a verdade não.

terça-feira, 1 de outubro de 2019



Vou ali reunir com uns antepassados, a ver se me fazem um desenho.

terça-feira, 24 de setembro de 2019



Segurava uma estrela de 5 pontas, procurava um livro filosofal num alfarrabista, para o pedir tive de o dançar, não tinham, mas tinham um livro de viagens.

| sonho 49 |



O encontro é inestimável e secreto seja qual for a revelação

segunda-feira, 16 de setembro de 2019



da quietude à quietude, o mundo.


terça-feira, 10 de setembro de 2019




dá nome às impossibilidades, não as mates
inteira-te nas partidas, segue a fome




terça-feira, 6 de agosto de 2019


Amanhecer é mais forte do que eu.


Se olhares muito para a montanha, a montanha começará a olhar para ti

segunda-feira, 22 de julho de 2019





Tive a sensação nos lábios do beijo na tua pele, pensei que sonhava acordada, afinal eu estava acordada no sonho, encostada a ti, olhávamos o céu; sussurraras-me junto ao ouvido esquerdo que tinhas lançado as cinzas em cima da cama, o soar do teu coração tocava todo o meu corpo, disse-te que as cinzas na cama me pareciam um altar da fénix.

| sonho 30 |

quinta-feira, 18 de julho de 2019


Havia dias em que sabia que o olfacto lhe ía matar a inocência, benzia-se antes de sair de casa, os cheiros levavam-na a limiares, apareciam-lhe mundos inquestionáveis, desaparecia de um e de outro em redemoinho, uma angústia.

quarta-feira, 17 de julho de 2019






o tempo a morrer devagar, macio, num jejum jubilar, estelar a lama de curar


segunda-feira, 8 de julho de 2019




o Tempo, e voltar

Antes de abrir os olhos eu não estava aqui. Voltar aqui foi uma subida, pelo escuro, primeiro surgiu um som, depois uma imagem que veio pelo som, depois o corpo, o meu, e logo a onda do mundo me voltou onde sou particularmente animada. Observo que o mundo progride do som ao corpo, e finalmente à luz, e que aparece e desaparece, que sobe e desce, que abre e fecha, que do escuro se faz luz e vigilante o sono, que da indiferenciação brota a diferença. O mundo será o mito ou o símbolo desse destino de onde se cai para se voltar, que nunca se perde. O tempo é-nos recobro do espanto de nos vermos invisíveis ou, o que é dizer o mesmo, mortais.
O que aconteceu e não aconteceu para eu voltar. No momento em que o mundo me volta torno-me submundo, entrecortada a luz, e sei, quando desescurecida, que voltei a cair, que não sou de aqui e nem de além, e nesta inquietação me sossego.




tempo, logo mistério. 



Quando o discípulo está pronto, o mestre desaparece.