o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido
Luíza Dunas (Luísa Sousa Martins) nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
Primeiro
foi a explosão do areal e logo o mar em tempestade diluvial, veio o
abismo e a urgência da queda, foi a perda, foi a agonia e por fim o
choro. Não se imagina a luz, não se imagina.
| sonho 43 |
segunda-feira, 6 de maio de 2019
Antes de chegar aqui sonhei que estava neste lugar. Agora que aqui estou
é um outro lugar, um outro plasma, um outro véu. Este contínuo
desaparecimento
recordar é depois, acordar é antes de
o cuco foi o primeiro.
quarta-feira, 24 de abril de 2019
Este embaraço de refrearmos o rio, que nos leva somente para nos selar o
ir, descobre-nos, desfeitos, à vista de abismos, movimento e eternos.
Este medo de não libertarmos a morte, de sermos as correntes incertas,
para, enfim, o salto, amoroso, imperdível, original, nEssa inconcebível
plenitude
terça-feira, 16 de abril de 2019
todos os céus, todos os pássaros, os anos de cela, os anos de ti, a espera, o morrer, a cada amanhecer me desconheço
beijo esta pedra
sábado, 6 de abril de 2019
Love it be
quinta-feira, 28 de março de 2019
'Ela
quarta-feira, 27 de março de 2019
um som uma mudez circulando circulando-me um acordar uma corda
primeiro, o primeiro alvor, depois os pássaros, os voos e as letras, o Tejo a transcorrer-me, e a barca, aquela barca
| livro das horas |
terça-feira, 19 de março de 2019
é do anseio de sombra que irradiamos como ruínas majestosas a desaparecer ao drama da luz
terça-feira, 5 de março de 2019
ao corpo e à morte por vastos e inconcebíveis nos prendemos a imaginá-los
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
vigoroso silêncio das ondas da noite, o respirar do céu, sorri o anjo ao morder-me
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
das duas, uno és quieto e inconstante humoração, não há escolha, é uma liberdade.
sábado, 9 de fevereiro de 2019
Quando partes, ficas.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
Orar é selvagem
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
Só há tempo para ser inteiro
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
um raio iluminoso do céu por entre os galhos sombrios me entreabre os lábios de fome a sonhar-te
Orar é humano
quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
por este céu em que somos a terra nos desfolha os olhos
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
demoras-te mortalmente
quarta-feira, 16 de janeiro de 2019
é no impossível que tocamos a eternidade
Deixa morrer a vida e vive.
Estas brumas devolvem-me a vós, meus irmãos, minhas vidas de morrer, anelo e fôlego, meu íntimo.
Por estas colinas a noite é a pérola do sol, juntam-se os pássaros ao
rosar dos céus e no rio uma nocturna inquietação promete penetrar a
manhã, lúcida, as árvores são o coração dos sonhos, macio da tempestade,
a noite arrisca adentro o homem o longe e o sangue com a força dos
tempos, das leis, cobrem a cidade, as brumas.
quinta-feira, 22 de novembro de 2018
nos teus braços pousamos o nosso corpo - não o nosso peso - o nosso sentir, por ti, vemos o que vês, em nós, o escudo mortal, a escuridão e o s i l ê n c i o
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
as horas sobem ao azul, os nossos corpos tocam o sopro, olhamo-nos em
várias direcções, a inesperada dor de sermos luz, juntos, brandos e
bravos, acerta-nos a nudez.
Salto da gazela - sonhos de uma curandeira
segunda-feira, 23 de julho de 2018
é manhã, de verão, as noites crescem, a brisa pendula as árvores, os
cães ladram, já desço pelos degraus de terra para o lago, eis as
alcachofras, a lavanda, as estevas, o alecrim, as formigas, os juncos,
os ternos juncos, vou curar os pés nas lamas brancas e vermelhas, e
vou-te largar ao sol a partir das águas, as rãs coaxam, entro.
com a mesma força com que me preenche me esvazia, amarra-me e devolve-me as cordas, este recobrado dos magmas início.