Depois ficaram só os dois, houve aquele romper súbito da penitência, a auscultarem-se ao céu e aos tempos e a desembaraçarem a solidão. A bela desenganava-se. No compasso estelar, o sangue corria-lhe sem temor, límpido, desfez-se-lhe o caminho e a besta.
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segunda-feira, 5 de junho de 2017
quarta-feira, 10 de maio de 2017
Vénus prostrada, corpo deitado ao fragor da sombra, febril, os olhos abrem as cortinas sobre a montanha, ali no cume, onde o gelo ao sol promete o cair das lágrimas e o regresso das árvores, das flores, das fontes e dos pássaros, trémulos e doces os lábios no bramir-lhe a lua.
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terça-feira, 9 de maio de 2017
quinta-feira, 20 de abril de 2017
A passagem estava escrita.
Nessa manhã, após a leitura, partiu descalça, e seguiu a borboleta branca, eram muitas, não tinha como se perder, até que desapareceram. Tinha chegado à escada talhada na terra.
Começou a subir, a escada era como uma serpente enroscada à montanha, à medida que subia escurecia rapidamente. Subiu até ao último degrau que dava para um cume suspenso, de onde provinha uma luminosidade dourada e um cheiro encantador, profundo, a deserto.
Ajoelhou-se, a olhar para cima. Tinha sede. Via silhuetas, ondulantes, as mulheres segredavam a sabedoria, e os homens a eternidade. As suas vestes eram translúcidas, os cabelos dourados, os corpos leves, a morte tinha-os elucidado de tanto lhes pregar a vida, em severa misericórdia. Deram-se as mãos, agora eram uma coroa branca, e o cume côncavo, como um cálice.
Vai, chegou-lhe ao peito em amoroso eco.
Levantou-se, e começou a descer pelas vertentes, a escada desaparecera, amanhecia, a partir dali arriscou todas as paisagens, perdendo-se acertadamente.
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Àqueles altos sobe-lhe o vento ao sol e o azul branco do mar,
um freio no peito volve-se-lhe corrente imponente como a que enfeitiça a vaga a arrebatar o destino da terra, e a salga, a deserta e lhe conta as areias, Antheia beija as flores e os odores e não foge do pássaro que a aterra sobre céus verdes e lhe arrouba o sangue com mel.
sexta-feira, 24 de março de 2017
Artemisa quebra-se agora,
quente como se acarinhasse as hastes de um veado ou os ramos de muitas árvores, olhar cintilante,
sonha as pernas pelos areais e falésias ao redor dos polens da lua do sal da nua pele, as ancas; sonha aos ventos o azul, o canto do tempo de cima a baixo, sonha os pés suspensos na maré e no chão, e os lábios em segredo aos anjos pela boca de Hermes.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
terça-feira, 7 de fevereiro de 2017
Há uma presença na agonia desta
manhã a reencarnar-se-me leveza que me obriga a enxergar na mais escura
paisagem, lembra-me uma fome, ou um deus, retarda-me as cinzas e o levantar-me
incrédula da cama para a novidade insuportável do dia, é que a luz tem
claramente um lado negro. Parece estar destinada a tomar todo o seu tempo,
para, como uma espada, me trespassar e desiludir-me o inferno. E eu rezo para
que aponte ao plexo solar toda essa brutal pacificação.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
O melhor sitio da terra para se esconder e morrer pareceu-lhe ser aquela gruta no alto da montanha. Artemisa perdeu as feições, tornou-se barro, lama seca, de um vermelho negro, as costas com veios fundos, peito escavado. Passou anos curvada e desaparecida em seu perecimento.
Foi encontrada por Perséfone na noite que esta atendia ao grito da primavera a chamá-la para o azul da manhã e escolhera sair por aquela gruta pois dava para um céu vasto. Perséfone segurou-lhe as mãos e deu-lhe metade de uma romã, rubra, Artemisa sem levantar a cabeça. E ali ficaram silenciosas a olhar a romã, primeiro, e depois, a hora, a hora que chegara, no átrio da gruta que se abria para o azul luminoso. Artemisa levou aos lábios a romã, choraram-lhe os olhos visceralmente, viu a floresta e os pássaros, tomou-lhe uma ânsia, começou a correr pelas vertentes, instintiva, entorpecida mas veloz, um fumo branco batia-lhe nas faces, viu uma anciã, de costas, de lenço à cabeça atado ao pescoço, um homem a voltar-se para a ver, uma criança muito pequena a erguer os braços para o colo de uma mulher vestida de branco, não podia ver quem eram, surgiam e desapareciam, a preto e branco. Por fim, o leito de um riacho a arrepiar-lhe todo o corpo, as línguas doces dos cervos nas suas costas, as cores das flores a raiar e uma ursa a apontar para a lua do outro lado do sol. Artemisa apenas se lembrava de meia romã, rubra, e de umas mãos noite quente azul a clarear.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Estava num sótão, chão de tábuas, o sol descia em poucos raios de luz e pó de entre as telhas,
mesas, camas, cadeiras, guarda-fatos, teias de aranha, candeeiros, tapetes, quadros, arcas, dos avós,
um espelho a um canto na parede mostrava-lhe uma sombra, que se movia quando se movia,
parou, focou,
e viu,
ainda de longe,
um rosto, de mulher, olhos zangados,
a boca tinha os lábios cozidos um ao outro com um fio de lã de cor amarela,
aproximou-se,
devagar, torneando as mobílias, para ver de mais perto,
e daquele rosto zangado foi saindo dos olhos um sorriso,
e agora, tão perto, o fio de lã era um fio de creme, amarelo, que se derretia pelos lábios, doce, os lábios luziam, e o olhar, a olhar-me, de um brilho.
Salto da gazela - sonhos de uma curandeira
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Diamantes
acordo
o morcego, há um disparo de luz que nos chega do céu da noite, corremos
espantados por entre os troncos e árvores da floresta, abrem-se
clareiras ante os nossos olhos, de um branco não suportável, caímos e
fechamos os olhos ao gritar
estou numa gruta, prostrada, olho à
minha volta, é um nicho de alquimista, cheira a suor de lobos, entra um
falcão, cela a gruta, olha-me sabiamente, estou perfumada de cios, sinto
o fôlego de vários fôlegos, em feroz ternura.
| diamantes |
Salto da gazela - sonhos de uma curandeira
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Escrevo
em noite. Escrevo medo. Vejo a noite do medo, o tremor da alma, a
deriva do corpo. Vejo os anjos sentados ao meu lado, olham para mim,
inexpressivamente serenos. Guardam-me e aguardam que me sente eu a seu
lado. Olho para eles e choro na certeza de apenas poder
ir ocupar o meu lugar, e vejo-me impotente, de uma solar impotência.
| Salto da gazela - Sonhos de uma curandeira |
| Salto da gazela - Sonhos de uma curandeira |
Já estou a vê-lo,
páro,
Ó paaai !
Os sons propagam-se velozmente por estes e outros vales, todos eles fundados nas cristas das cordilheiras. Tenho esta visão de pro fundo.
O meu pai é atingido, e responde-me, Ei !
Levanta os olhos para cima, e vira-se à minha procura. Estou a 180° e uns anéis acima. Levanto os braços a acenar-lhe. Encontra-me e acena-me.
Vou descer, com vista para toda uma vida.
Estou a dormir, sonho. Acordo no sonho e observo-me a sonhar. Uma terceira consciência dá conta de que estou a observar-me a sonhar e dá-se, então, uma subida. A percepção é claramente de subida, ascendendo um caudal estratificado mas sem barreiras, um fluxo livre. Nesta subida se plasmam e reúnem as várias consciências, por momentos desaparece a diferenciação e depois segue-se a vivência directa da memória.
Aqui, deitada, olho as paredes do sótão, encontro os rostos de antepassados e lugares no mundo onde nunca estive mas conheço desde pequena, nestes quadros. Vejo o meu irmão Virgílio e um cão. E vejo as mobílias, as casas e histórias que guardam, imediatas. Vejo as traves de madeira e o tempo em que havia apenas telhas, e as lareiras nas casas das minhas avós, e as sopas ao lume nas panelas de ferro, as vassouras feitas de giesta. Os sinos da igreja tocam o que já passou, a mudança, e a inseparação, o próprio fluxo. Também o medo, como no sonho, quase uma voragem. O meu corpo ganha consistência, sobretudo peso. Vou levantar-me.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Artúrea
Aura cinza branca, orla dourada e quente da montanha, pássaro suspenso nos ventos, lua em bruma cálida, batida, bendita, rochosa, a ama. Brame a ferida no areal a ursa, anfíbia ursa, luzem escamas, vénias d'amor sob a espada na caverna dos mares.
| Salto da gazela - sonhos de uma curandeira |
Por ali andava o cavaleiro, esquecido das cinzas, o sítio era brisa e espera. A morte não se distinguia da véspera, o caminho não saía do mesmo lugar - como no paroxismo da sede num deserto em que todas as linhas do horizonte se tornam iguais ao ponto, prodigiosamente.
Isolda, Isolda.
O mais era poção de chuva suspensa.
Mulheres que acordam com os lobos
na matemática misteriosa da esfera é o encontro que conta, uma indeterminável simultaneidade a tecer o imperativo desencontro, pura respiração. O céu verte assim os sopros arcanos, as perdições medicinais, os mares e as marés, os bosques e as árvores, os sóis e as luas, os gemidos nas noites virginais,
e o olfacto.
vim a ti, irmã de profundis,
no teu coraçao está o meu coração
ai
sinto as narinas grutas batidas de mar, os ouvidos a surdina destes fundos, as têmporas rebentam-me as costuras do sangue, morro-me, elegia-me teu neptuno canto, leva-me em teu dorso ao areal.
no dorso da baleia | Salto da gazela - sonhos de uma curandeira |
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