o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
naquele arbusto os melros esperavam chegaram as pombas
eles cantaram o pão, elas, de saia de roda, vermelha, dançaram as bagas, toda a noite o fogo e a lua.
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
Aura lunar, o halo da medula
céus e paixão, respirar.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
ao entrar no jardim
um cheiro a mar
e logo os melros,
e a floresta.
sábado, 14 de novembro de 2015
inclinam-se as árvores,
a montanha penetra as sombras
húmidos verdes dourados sob o azul outonal
encantado mato, as heras, os penedos, os musgos, os trilhos das chuvas.
terça-feira, 3 de novembro de 2015
mar, oh mar, veste que me despe tuas marés, a lei, meus pés a voar corpo água, as gaivotas a gritar mar que me ensinas, e apagas do areal.
Todos os obstáculos apontam caminhos.
sábado, 31 de outubro de 2015
samhain
é na morte a vida de todos os céus antepassados, oh anciãos amores em meu sangue os vossos, os ossos, os humores as fogueiras, os cedros, as macieiras o fumo das taças, das entranhas, fulgores - ao rubro nas vénias outonais a aura dos ancestrais.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Ao primeiro olhar um súbito e iminente limiar, o da anterioridade, interior ao olhar, remoto abismo do alumbramento, a aparição do que não morre. É tão invisível que é impossível não ver.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Sideral, o corpo, eco e penumbra.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
mar, mar, veio primal, o sal a mar, o mar, da terra o entoar, corpo areal, costa, crosta, gruta
ondas, a coroa, jóias, penas, barcos e sonhos de lonjura
pés nos grãos de areia, pêndulo e sol, números, e os pássaros.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
calor, o outono desembrulha ao vento o ouro das árvores,
fado entorno, nudez do corpo, amor, húmidos e fogo
doçura, paixão e desprendida.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Tudo
em pausa no sol do equinócio. Só o caniçal dança. E a criança.
domingo, 13 de setembro de 2015
Menina sobe às árvores, apanha as maçãs, cheira as frutas, o melro na alegria da manhã, o esquilo salta, caem as primeiras chuvas de setembro.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
o cheiro da caruma gaivota pousada no xisto aqui estou, Senhora, atende-me ao corpo, vento, rio, pranto.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
silêncio,
semente, raiz, seiva, tronco, ramo, folha, fruto, casca, e o mar
nas árvores.
Setembro é uma cegonha.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Escrevo porque não tenho palavras.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
o cabo uma falésia
gaivotas, grito a mar
oradores do sal
rebentação, arcanjo
miguel, o farol.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
veado, nevoeiro veloz
infrene teu cavalo
queda e presa, tu, precipício,
o precipício
Senhora !
aparição
azul azul
mudez
mudez
quarta-feira, 29 de julho de 2015
segunda-feira, 27 de julho de 2015
negro luminoso na renda do fado, ferida ao céu, tesouro desferido, sete amores batidos a mar, soluçar antebaptismal, anjos no canto do oceano, partido o ovo abóbadas erguidas, círios acesos, bastão esculpido, o pórtico chama, o átrio clama, a solo a ama.
terça-feira, 21 de julho de 2015
sobe a maré, o imo caldo sobre
as rochas e o areal, e o corpo,
o mar dentro, as algas, os fundos odores
ressudam a bruma e o sol,
o céu respira.
terça-feira, 14 de julho de 2015
rosadas as macias cornicabras, sento-me debaixo da pereira, descalço-me, saboreio, recordo minha avó.
domingo, 12 de julho de 2015
na hora da rega a enxada sulca os veios, desenha as caldeiras e a corrente da água nascente doura na terra as cabaças, as abóboras, as ameixas, os pêssegos, os diospiros, as peras, as maçãs.
as casas morrem.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
nascimento, imperativo pesadume da suprema leveza.