o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
o cheiro da caruma gaivota pousada no xisto aqui estou, Senhora, atende-me ao corpo, vento, rio, pranto.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
silêncio,
semente, raiz, seiva, tronco, ramo, folha, fruto, casca, e o mar
nas árvores.
Setembro é uma cegonha.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Escrevo porque não tenho palavras.
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
o cabo uma falésia
gaivotas, grito a mar
oradores do sal
rebentação, arcanjo
miguel, o farol.
sexta-feira, 31 de julho de 2015
veado, nevoeiro veloz
infrene teu cavalo
queda e presa, tu, precipício,
o precipício
Senhora !
aparição
azul azul
mudez
mudez
quarta-feira, 29 de julho de 2015
segunda-feira, 27 de julho de 2015
negro luminoso na renda do fado, ferida ao céu, tesouro desferido, sete amores batidos a mar, soluçar antebaptismal, anjos no canto do oceano, partido o ovo abóbadas erguidas, círios acesos, bastão esculpido, o pórtico chama, o átrio clama, a solo a ama.
terça-feira, 21 de julho de 2015
sobe a maré, o imo caldo sobre
as rochas e o areal, e o corpo,
o mar dentro, as algas, os fundos odores
ressudam a bruma e o sol,
o céu respira.
terça-feira, 14 de julho de 2015
rosadas as macias cornicabras, sento-me debaixo da pereira, descalço-me, saboreio, recordo minha avó.
domingo, 12 de julho de 2015
na hora da rega a enxada sulca os veios, desenha as caldeiras e a corrente da água nascente doura na terra as cabaças, as abóboras, as ameixas, os pêssegos, os diospiros, as peras, as maçãs.
as casas morrem.
sexta-feira, 3 de julho de 2015
nascimento, imperativo pesadume da suprema leveza.
É nas folhas que se soltam da árvore da vida que nascem os rumos e os destinos do reencontro numa ininterrupta exactidão, a do zero, derradeira expressão primeira.
quarta-feira, 13 de maio de 2015
o silêncio deste canto este choro de nascer vela que me segura a luz o dom de morrer
sexta-feira, 8 de maio de 2015
atraso as lágrimas por ti
que ainda não vieste.
sobre as
águas da represa as verdes rãs por entre as malhas do manto verde, as borboletas brancas pousam nas brancas flores das
couves, a sombra agora dourada como o sol, e o canto do cuco no adoçar da
gingeira, da figueira, da videira, do pólen.