Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 21 de julho de 2015


sobe a maré, o imo caldo sobre as rochas e o areal, e o corpo,
o mar dentro, as algas, os fundos odores ressudam a bruma e o sol,
o céu respira.

terça-feira, 14 de julho de 2015


rosadas as macias cornicabras, sento-me debaixo da pereira, descalço-me, saboreio, recordo minha avó.

domingo, 12 de julho de 2015


na hora da rega a enxada sulca os veios, desenha as caldeiras e a corrente da água nascente doura na terra as cabaças, as abóboras, as ameixas, os pêssegos, os diospiros, as peras, as maçãs.

as casas morrem.

sexta-feira, 3 de julho de 2015


nascimento, imperativo pesadume da suprema leveza.

sexta-feira, 19 de junho de 2015


baleias, oh anciãs da primordial caverna.

terça-feira, 16 de junho de 2015



na ilha escura do ancestral nascer
cintilam submersas vidas
auréolas nas marés de nuvens.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

tudo progride para a dissolução.


o mar cogita o sol nas dunas
agita a crista das espigas
aventura o céu nos fundos,
nas brumas, vivos defuntos.

sexta-feira, 12 de junho de 2015



No céu, o alpendre e o cajado
joelhos ao solo, oração do corpo,
na pele, sua, asas de rainha nua.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015


O matrimónio é uma via monástica.



É nas folhas que se soltam da árvore da vida que nascem os rumos e os destinos do reencontro numa ininterrupta exactidão, a do zero, derradeira expressão primeira.


quarta-feira, 13 de maio de 2015

o silêncio deste canto
este choro de nascer
vela que me segura a luz
o dom de morrer

sexta-feira, 8 de maio de 2015

atraso as lágrimas por ti
que ainda não vieste.

sobre as águas da represa as verdes rãs por entre as malhas do manto verde, as borboletas brancas pousam nas brancas flores das couves, a sombra agora dourada como o sol, e o canto do cuco no adoçar da gingeira, da figueira, da videira, do pólen.

terça-feira, 31 de março de 2015

páscoa




treze é no sigilo do coração a visão de virgem selvagem,
o fogo na crosta do pão
na cúspide dourada do templo a oração do beijo
e a pomba na sigla solar do choro de Maria Magdalena.


segunda-feira, 30 de março de 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

passagem




nas horas em que os mortos são vivos,
nas luas de través, nas súbitas penas 
nos inícios finais, altares
clarões desferem a perpétua, os estios, ressurrecta.

terça-feira, 17 de março de 2015

fulgura a saudade
penas ao cantar dos anelos
fumos de vivo fado
sonho, pousos do abraço.

sexta-feira, 6 de março de 2015

vento, nevoeiro, ardor
chave caída no deserto
a queda, as mãos dadas
anjo que me aguardas. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015


terça-feira, 23 de dezembro de 2014



na manjedoira celeste, em sempiterno presépio, a adoração, ígneas coroas luzem da estrela nascente, núncio do ventre original, oh humores ancestrais, anjos, animais, plantas, terra, águas baptismais, a virgem e o sal, em nossos pés a promessa do altar, Pai-amor, Pão-nosso.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014




na orla do morrer se espera
nos limiares o leve e o bem
as contas do colar ressoltas
alam-se dores pés e amores.
naquela casinha à beira rio me retiro
por estas estradas fora ali é a viagem.

olhámos para o muro, sorrimos um para o outro
mãos pés pernas, e salto, chamámos os melros.


aos olhos sussurram o longe, a baleia, a gaivota, o mar, meu corpo perto.
na efervescência do entardecer o céu uma enseada
baixa a maré, baixa a noite, sobe a lua prosternada.


mulher que sobes as escadas
as gaivotas no céu entorno 
perfume de cactos, palmeiras, buganvílias, 
e mar, 
o mar adentro o areal.


tocam os sinos à transparência do deserto
os pássaros escrevem as glórias da manhã
não há pecado, pecadores, nem desculpas
puríssima, tuas bençãos sobre nosso graal
despertemos em filho na unidade da pomba.
| Catedral de Almeria |