o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
o silêncio deste canto este choro de nascer vela que me segura a luz o dom de morrer
sexta-feira, 8 de maio de 2015
atraso as lágrimas por ti
que ainda não vieste.
sobre as
águas da represa as verdes rãs por entre as malhas do manto verde, as borboletas brancas pousam nas brancas flores das
couves, a sombra agora dourada como o sol, e o canto do cuco no adoçar da
gingeira, da figueira, da videira, do pólen.
clarões desferem a perpétua, os estios, ressurrecta.
terça-feira, 17 de março de 2015
fulgura a saudade
penas ao cantar dos anelos
fumos de vivo fado
sonho, pousos do abraço.
sexta-feira, 6 de março de 2015
vento, nevoeiro, ardor
chave caída no deserto
a queda, as mãos dadas
anjo que me aguardas.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
na manjedoira celeste, em sempiterno presépio, a adoração, ígneas coroas luzem da estrela nascente, núncio do ventre original, oh humores ancestrais, anjos, animais, plantas, terra, águas baptismais, a virgem e o sal, em nossos pés a promessa do altar, Pai-amor, Pão-nosso.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
na orla do morrer se espera nos limiares o leve e o bem as contas do colar ressoltas alam-se dores pés e amores.
naquela casinha à beira rio me retiro
por estas estradas fora ali é a viagem.
olhámos para o muro, sorrimos um para o outro
mãos pés pernas, e salto, chamámos os melros.
aos olhos sussurram o longe, a baleia, a gaivota, o mar, meu corpo perto.
na efervescência do entardecer o céu uma enseada
baixa a maré, baixa a noite, sobe a lua prosternada.
mulher que sobes as escadas as gaivotas no céu entorno perfume de cactos, palmeiras, buganvílias, e mar, o mar adentro o areal.
tocam os sinos à transparência do deserto
os pássaros escrevem as glórias da manhã
não há pecado, pecadores, nem desculpas
puríssima, tuas bençãos sobre nosso graal
despertemos em filho na unidade da pomba.
| Catedral de Almeria |
o inefável manancial do deserto.
os melros lá estavam à hora anunciada das
chuvas recostados, faces voltadas para o céu,
benziam-se naquele arbusto e luzidias pingavam as bagas
vermelhas.
invejaste-me, desejaste o meu lugar, pois agora aprecia, Damocles.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
nesta floresta sopram de uma macia lonjura o saber das marés, do sol, dos pés no areal algas, aves e peixes, tombo de fundos e sal.
perde-te ao ponto de só te restar o encontro.
Édipo! destino paixão irmão sombra da realeza universal luz entrelaçada em pé ferido da queda eva fonte femininal enigma o além mãe e mulher à antígona trindade nosso pai.
esperas e horrores na torra das horas ruínas corpos feridas vidas lacrimadas das guerras vingue a iluminada deriva desejadas sejam a nudação e a graça inumerável zero, abundância prometida aos pés, aos pés, terra-ninguém, maria !
sábado, 2 de agosto de 2014
passos para o altar, o alter sobreiros a cúpula do vagar ao sol, as almas, à sombra no quieto a água e a messe.
ao fundo o portão e o guardião.
tu, Irmão meu, minha coroa de quem nasci e vim morrer por quem de amor me dotas dos partos nos antecipamos juntos a vida desaparecemos.
a loba abre as narinas à crista das espigas ao vento na descida ao rio por árvores azul penedos oh alento os cheiros destas terras e o hálito estival das serras tentam-na ao uivo nas ladeiras sob a invocada lua.
no corpo e sangue a luz e cálice, da vida inexpugnável sou e inascível o aperto, o dom, o ciciar dos céus, pó.
nudez o corpo, pouso e oferenda mãos, mudo enleio outono e éter a noite o beijo nos foge e encobre violino entre searas una despedida murmúrios luz vísceras nossa pele.