Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 31 de março de 2015

páscoa




treze é no sigilo do coração a visão de virgem selvagem,
o fogo na crosta do pão
na cúspide dourada do templo a oração do beijo
e a pomba na sigla solar do choro de Maria Magdalena.


segunda-feira, 30 de março de 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

passagem




nas horas em que os mortos são vivos,
nas luas de través, nas súbitas penas 
nos inícios finais, altares
clarões desferem a perpétua, os estios, ressurrecta.

terça-feira, 17 de março de 2015

fulgura a saudade
penas ao cantar dos anelos
fumos de vivo fado
sonho, pousos do abraço.

sexta-feira, 6 de março de 2015

vento, nevoeiro, ardor
chave caída no deserto
a queda, as mãos dadas
anjo que me aguardas. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015


terça-feira, 23 de dezembro de 2014



na manjedoira celeste, em sempiterno presépio, a adoração, ígneas coroas luzem da estrela nascente, núncio do ventre original, oh humores ancestrais, anjos, animais, plantas, terra, águas baptismais, a virgem e o sal, em nossos pés a promessa do altar, Pai-amor, Pão-nosso.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014




na orla do morrer se espera
nos limiares o leve e o bem
as contas do colar ressoltas
alam-se dores pés e amores.
naquela casinha à beira rio me retiro
por estas estradas fora ali é a viagem.

olhámos para o muro, sorrimos um para o outro
mãos pés pernas, e salto, chamámos os melros.


aos olhos sussurram o longe, a baleia, a gaivota, o mar, meu corpo perto.
na efervescência do entardecer o céu uma enseada
baixa a maré, baixa a noite, sobe a lua prosternada.


mulher que sobes as escadas
as gaivotas no céu entorno 
perfume de cactos, palmeiras, buganvílias, 
e mar, 
o mar adentro o areal.


tocam os sinos à transparência do deserto
os pássaros escrevem as glórias da manhã
não há pecado, pecadores, nem desculpas
puríssima, tuas bençãos sobre nosso graal
despertemos em filho na unidade da pomba.
| Catedral de Almeria |


o inefável manancial do deserto.


os melros lá estavam à hora anunciada das chuvas 
recostados, faces voltadas para o céu, benziam-se
naquele arbusto e luzidias pingavam as bagas vermelhas.


invejaste-me,
desejaste o meu lugar,
pois agora aprecia, Damocles.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014


nesta floresta sopram de uma macia lonjura
o saber das marés, do sol, dos pés no areal
algas, aves e peixes, tombo de fundos e sal.


perde-te ao ponto de só te restar o encontro.

Édipo! destino paixão irmão 
sombra da realeza universal
luz entrelaçada em pé ferido
da queda eva fonte femininal
enigma o além mãe e mulher
à antígona trindade nosso pai.

esperas e horrores na torra das horas 
ruínas corpos feridas vidas lacrimadas
das guerras vingue a iluminada deriva
desejadas sejam a nudação e a graça 
inumerável zero, abundância prometida
aos pés, aos pés, terra-ninguém, maria !

sábado, 2 de agosto de 2014



passos para o altar, o alter
sobreiros a cúpula do vagar
ao sol, as almas, à sombra
no quieto a água e a messe.

ao fundo o portão e o guardião.
tu, Irmão meu, minha coroa
de quem nasci e vim morrer
por quem de amor me dotas
dos partos nos antecipamos 
juntos a vida desaparecemos.

a loba abre as narinas à crista das espigas ao vento
na descida ao rio por árvores azul penedos oh alento
os cheiros destas terras e o hálito estival das serras
tentam-na ao uivo nas ladeiras sob a invocada lua.
no corpo e sangue a luz e cálice, 
da vida inexpugnável sou e inascível
o aperto, o dom, o ciciar dos céus, pó.
nudez o corpo, pouso e oferenda
mãos, mudo enleio outono e éter
a noite o beijo nos foge e encobre
violino entre searas una despedida
murmúrios luz vísceras nossa pele.

terça-feira, 8 de julho de 2014


selo das amorosas tessituras,
anunciam astros, anjos e budas
da agrura ao sublime, a sacra via.

domingo, 6 de julho de 2014


ao coração de todos os seres, já !
desbravar o sopro, a morte, o berço.

adentro a serra, fundos veios minérios e lamas
arrebatam ao poente árvores pássaros e penas
de ruínas o húmus, a tocha, a coroa do levante.