o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
clarões desferem a perpétua, os estios, ressurrecta.
terça-feira, 17 de março de 2015
fulgura a saudade
penas ao cantar dos anelos
fumos de vivo fado
sonho, pousos do abraço.
sexta-feira, 6 de março de 2015
vento, nevoeiro, ardor
chave caída no deserto
a queda, as mãos dadas
anjo que me aguardas.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
na manjedoira celeste, em sempiterno presépio, a adoração, ígneas coroas luzem da estrela nascente, núncio do ventre original, oh humores ancestrais, anjos, animais, plantas, terra, águas baptismais, a virgem e o sal, em nossos pés a promessa do altar, Pai-amor, Pão-nosso.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
na orla do morrer se espera nos limiares o leve e o bem as contas do colar ressoltas alam-se dores pés e amores.
naquela casinha à beira rio me retiro
por estas estradas fora ali é a viagem.
olhámos para o muro, sorrimos um para o outro
mãos pés pernas, e salto, chamámos os melros.
aos olhos sussurram o longe, a baleia, a gaivota, o mar, meu corpo perto.
na efervescência do entardecer o céu uma enseada
baixa a maré, baixa a noite, sobe a lua prosternada.
mulher que sobes as escadas as gaivotas no céu entorno perfume de cactos, palmeiras, buganvílias, e mar, o mar adentro o areal.
tocam os sinos à transparência do deserto
os pássaros escrevem as glórias da manhã
não há pecado, pecadores, nem desculpas
puríssima, tuas bençãos sobre nosso graal
despertemos em filho na unidade da pomba.
| Catedral de Almeria |
o inefável manancial do deserto.
os melros lá estavam à hora anunciada das
chuvas recostados, faces voltadas para o céu,
benziam-se naquele arbusto e luzidias pingavam as bagas
vermelhas.
invejaste-me, desejaste o meu lugar, pois agora aprecia, Damocles.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
nesta floresta sopram de uma macia lonjura o saber das marés, do sol, dos pés no areal algas, aves e peixes, tombo de fundos e sal.
perde-te ao ponto de só te restar o encontro.
Édipo! destino paixão irmão sombra da realeza universal luz entrelaçada em pé ferido da queda eva fonte femininal enigma o além mãe e mulher à antígona trindade nosso pai.
esperas e horrores na torra das horas ruínas corpos feridas vidas lacrimadas das guerras vingue a iluminada deriva desejadas sejam a nudação e a graça inumerável zero, abundância prometida aos pés, aos pés, terra-ninguém, maria !
sábado, 2 de agosto de 2014
passos para o altar, o alter sobreiros a cúpula do vagar ao sol, as almas, à sombra no quieto a água e a messe.
ao fundo o portão e o guardião.
tu, Irmão meu, minha coroa de quem nasci e vim morrer por quem de amor me dotas dos partos nos antecipamos juntos a vida desaparecemos.
a loba abre as narinas à crista das espigas ao vento na descida ao rio por árvores azul penedos oh alento os cheiros destas terras e o hálito estival das serras tentam-na ao uivo nas ladeiras sob a invocada lua.
no corpo e sangue a luz e cálice, da vida inexpugnável sou e inascível o aperto, o dom, o ciciar dos céus, pó.
nudez o corpo, pouso e oferenda mãos, mudo enleio outono e éter a noite o beijo nos foge e encobre violino entre searas una despedida murmúrios luz vísceras nossa pele.
terça-feira, 8 de julho de 2014
selo das amorosas tessituras, anunciam astros, anjos e budas da agrura ao sublime, a sacra via.
domingo, 6 de julho de 2014
ao coração de todos os seres, já ! desbravar o sopro, a morte, o berço.
adentro a serra, fundos veios minérios e lamas arrebatam ao poente árvores pássaros e penas de ruínas o húmus, a tocha, a coroa do levante.
de longe o vero é próximo jaz rei em doce remoínho prumo, aliança, lua raínha.
deserto a pele seio regaço gemido colo mato e seiva vestal cheiro nimbo mortal húmida fera o pélago e nu, de ouro o tempo, o tempo.