o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
esperas e horrores na torra das horas ruínas corpos feridas vidas lacrimadas das guerras vingue a iluminada deriva desejadas sejam a nudação e a graça inumerável zero, abundância prometida aos pés, aos pés, terra-ninguém, maria !
sábado, 2 de agosto de 2014
passos para o altar, o alter sobreiros a cúpula do vagar ao sol, as almas, à sombra no quieto a água e a messe.
ao fundo o portão e o guardião.
tu, Irmão meu, minha coroa de quem nasci e vim morrer por quem de amor me dotas dos partos nos antecipamos juntos a vida desaparecemos.
a loba abre as narinas à crista das espigas ao vento na descida ao rio por árvores azul penedos oh alento os cheiros destas terras e o hálito estival das serras tentam-na ao uivo nas ladeiras sob a invocada lua.
no corpo e sangue a luz e cálice, da vida inexpugnável sou e inascível o aperto, o dom, o ciciar dos céus, pó.
nudez o corpo, pouso e oferenda mãos, mudo enleio outono e éter a noite o beijo nos foge e encobre violino entre searas una despedida murmúrios luz vísceras nossa pele.
terça-feira, 8 de julho de 2014
selo das amorosas tessituras, anunciam astros, anjos e budas da agrura ao sublime, a sacra via.
domingo, 6 de julho de 2014
ao coração de todos os seres, já ! desbravar o sopro, a morte, o berço.
adentro a serra, fundos veios minérios e lamas arrebatam ao poente árvores pássaros e penas de ruínas o húmus, a tocha, a coroa do levante.
de longe o vero é próximo jaz rei em doce remoínho prumo, aliança, lua raínha.
deserto a pele seio regaço gemido colo mato e seiva vestal cheiro nimbo mortal húmida fera o pélago e nu, de ouro o tempo, o tempo.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
corpo, nuvem macia
rio de mar, à chuva
despida fuga, rendido.
o contínuo milagre de cheiros, verdes e pássaros neste jardim reentorna-me de todos os quadrantes a mira do cipreste: meu altar, meu chão, a transparência incessível com que me mostras e desfazes o tolhimento, a leveza com que me sopras do abismo o reencontro solsticia-me de morrer.
amora branca na sina de um beijo.
pomba branca, infuso fogo
soberano amor florescente.
no esquecimento se banham todas as memórias.
terça-feira, 3 de junho de 2014
a estas rochas sobre o veludo das algas me dou o cheiro do mar despede-me do corpo, ah deus.
roga-me a serpente os ventos do caminho assombra-me febril o rumo que me ilumina não há regresso nem passado nem futuro na inseparação o pio medo, benta água fria.
terça-feira, 27 de maio de 2014
ao entrar, parto, o parto pele, minha barca, os pés no areal da ampulheta, nua recém-chegada à partida.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
ao descerrar das brumas o assobiar do vendaval flameja a espada da ísis ancestral aves negras na senda dos alvores a foz na voz d'irmãos amores fogo diamantino, vulcão, minha lava, minhas cinzas, em todos os desertos, fontes, meu coração travessias ao lodo, lótus original.
no rosto a flor de laranjeira, pólen do tempo impossível.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
na benevolente quietude da montanha espera inocente, levita o canto do cuco presságios da imensidão, o esvaziamento.
nos olhos da senhora a subida prosternação, afilhada erguida, virginal chama, a ceia, a ceia.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
assim que a filha o avista a sua voz reúne a brisa, os pássaros, os cheiros, o mato, as flores, as cordilheiras, os verdes, o azul, o sol, os insectos, os minérios, as terras, as covas, as represas, as hortas, toda a manhã, todos, no som do p do a do i.
o cuco cuca, tratam-se as videiras, o sol bate as 11, a borboleta branca adeja sobre o faval, o cuco cuca, a pereira, o pessegueiro, a cerejeira soltam das flores prenhes seus frutos, prenúncio de maio, promessa de abastança no fervor das rezas dos campos.
na velação a fogueira da sétima cúpula círio ao alto adentra o fogo nas águas unção dos espíritos febris dos amores exaltação das feras, retumbam tambores.
desferida a dádiva do amanhecer comoção no corpo, o golpe da nudez.
pássaros pela majestosa floração ramos, pousos, cantos no azular os elfos, os anjos, no céu a terra as margaridas entrelaçam prados poças de chuvas, fetos, insectos no regato a música, luzem ceptros.
por vezes, David, aconchegamo-nos a tristes penitências por vezes, sabes, alongamo-nos em alegres promessas e por vezes esgotamos o tempo de revivermos mil vezes o conspirado adiamento de nos desenganarmos de vez.