Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



sexta-feira, 9 de maio de 2014

na velação a fogueira da sétima cúpula
círio ao alto adentra o fogo nas águas 
unção dos espíritos febris dos amores
exaltação das feras, retumbam tambores.
desferida a dádiva do amanhecer
comoção no corpo, o golpe da nudez.
pássaros pela majestosa floração 
ramos, pousos, cantos no azular
os elfos, os anjos, no céu a terra 
as margaridas entrelaçam prados 
poças de chuvas, fetos, insectos
no regato a música, luzem ceptros.
por vezes, David, aconchegamo-nos a tristes penitências
por vezes, sabes, alongamo-nos em alegres promessas
e por vezes esgotamos o tempo de revivermos mil vezes
o conspirado adiamento de nos desenganarmos de vez.
brumas amantam o verde mato
jarros e estrelícias humedecidos
pingam azedas e bagas vermelhas
pousado naquele arbusto o melro.
no peito suspensas as sacras águas
baptismo no deserto névoas da paixão
luz eterna, íntima sede, virá a pomba
o sopro da trindade, imortal reaparição.
entre irmãos nas trevas me ajoelho
nossa catedral amor, eleitas penas
ascender ao abismo perfeito pouso 
a bruma os anjos, luzem açucenas.
no jardim, húmidos ébrios odores 
primaveram os verdes e as flores, 
pássaros em cada ramo folheado
cabelos ao vento, colo desnudado 
mulher ao sol reclinada no banco 
sonha o jardineiro naquele recanto.

Tudo é um antes, um secreto, uma cripta, uns escritos. D'Isso o corpo verbal, a respiração, a onda primordial. Depois os anjos, qual cegonha, a iluminar a via parental, encarnar, o parto, partir . Não há luz que desvele a luz, só a sombra, só o deserto, só o entardecer, só as cinzas, só os irmãos, só o amor, n'Isso.

no feminino o masculino, solar entorno em corpo de lua, 
sagrada assim, deusa irmã materna amante, alma nua.


Quem é anjo sempre aparece.
a perda ou o perdão
o porto ou o portão.
houve no tempo um tempo que há
um tempo que não é do tempo
o tempo de sempre amor.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

em amor diz-se a verdade.

ao amanhecer raia a sombra 
silente musical é nas árvores jangada, 
é nas pedras templo, nas conchas fundo, nos lírios campos,
e é em mim descoberta.
toda a noite a rainha chorou
suas lágrimas o mundo inundou
em mar imergiu e logo respirou
ventos fortes e o mar não oscilou
chuvadas e a rainha não molhou.

na trovoada o marco do altar
aos olhos da senhora sacro ardor
águas de fogo, bátegas em oração
os anjos magistrais ao clamor.
depois da bonança vem a saudade.

primoroso desassossego
o lenho na sanga do medo
descalça ao céu derramado 
nudez unção do tornado
Para bom entendedor, sagrado é amor.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

monte acima sobe a sombra
na cifra do sol rosam os fenos
juntam-se os pássaros.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

amanhecer nos ciprestes, sonho de reis
nas areias sacras entre os irmãos desmontar e ajoelhar.

oração do guarda do anjo

a caminho do instante, guardo-te, meu anjo, na dádiva de vigília que me ensinas. vejo-te nitidamente na luz e na sombra, vulto indistinto. ao largo e à minha beira, cantas amor, nossa infinita irmandade.

meu anjo, perseverante narrador do inenarrável mistério, segredas-me a inocência e eu confesso-te a minha ignorância. oro por ti, oras por mim, tocamo-nos. revezamos. 

de espada benta em mãos, eis-me frágil. frágil, não indefesa, tão frágil, não inofensiva. sobretudo quente de noite e de sonhos, tábuas manuscritas por ti, ó guardador de omissos mapas.
no azul sem fim
de uma nave a flutuar
ouço uma voz a chamar ( será por mim? )

no alambique eu vou entrar
pelo fogo vou subir
( a lua e o sol a murmurar: 
vem para fora de ti, mas não saias d’aqui )

e o alambique a oscilar
em partículas de amor me sinto no ar
para logo me destilar e voltar a mim, aqui,
que do azul afinal nunca saí 
re-voltada a cauda mordi porque do mal não sou
nem o bem me assomou, sou una
sou cinza, fénix de novo
sou amor, soror.

sonho o canto do cisne
minha morte, meu bem
a noite se me apague,
meu natal.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

na procissão do sol, a concha, os fluxos
das trevas, pérolas, derramam luxos.
pássaro sou
coração meu dó
na hora do luto e do arroubo
o sobrevoo tão só.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

eis o instante
taça erguida na sede de nada
coração
panteão
miradouro
silêncio
de nós.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

para bom entendedor, sagrado é amor.
na carne dos lábios
as funduras do silêncio e do carme
beijo carmim o infindo