Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

amanhecer nos ciprestes, sonho de reis
nas areias sacras entre os irmãos desmontar e ajoelhar.

oração do guarda do anjo

a caminho do instante, guardo-te, meu anjo, na dádiva de vigília que me ensinas. vejo-te nitidamente na luz e na sombra, vulto indistinto. ao largo e à minha beira, cantas amor, nossa infinita irmandade.

meu anjo, perseverante narrador do inenarrável mistério, segredas-me a inocência e eu confesso-te a minha ignorância. oro por ti, oras por mim, tocamo-nos. revezamos. 

de espada benta em mãos, eis-me frágil. frágil, não indefesa, tão frágil, não inofensiva. sobretudo quente de noite e de sonhos, tábuas manuscritas por ti, ó guardador de omissos mapas.
no azul sem fim
de uma nave a flutuar
ouço uma voz a chamar ( será por mim? )

no alambique eu vou entrar
pelo fogo vou subir
( a lua e o sol a murmurar: 
vem para fora de ti, mas não saias d’aqui )

e o alambique a oscilar
em partículas de amor me sinto no ar
para logo me destilar e voltar a mim, aqui,
que do azul afinal nunca saí 
re-voltada a cauda mordi porque do mal não sou
nem o bem me assomou, sou una
sou cinza, fénix de novo
sou amor, soror.

sonho o canto do cisne
minha morte, meu bem
a noite se me apague,
meu natal.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

na procissão do sol, a concha, os fluxos
das trevas, pérolas, derramam luxos.
pássaro sou
coração meu dó
na hora do luto e do arroubo
o sobrevoo tão só.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

eis o instante
taça erguida na sede de nada
coração
panteão
miradouro
silêncio
de nós.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

para bom entendedor, sagrado é amor.
na carne dos lábios
as funduras do silêncio e do carme
beijo carmim o infindo

sexta-feira, 29 de novembro de 2013



no invernar
pinta a azeitona, desnuda a videira
aos pés a folhagem, espinhos nos soutos
o viço nos musgos, queimam geadas,
o frio desata um calor nos cheiros dos campos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

templo n'água
o entorno da sacra mãe,
sangue, sal do tempo, o tempero
escadas, a temperança, graças de céu.
sangramento lacrimal,
ventre em derradeiro pranto, 
no íntimo luto a luz de Aparecida.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

no fundo alento as mudas do espírito
matriciais dores da desencarnação, 
o abandono, o âmago
- Pai, porque me abandonaste ?

samhain

é na morte a vida de todos os céus
antepassados, oh anciãos amores
em meu sangue os vossos, os ossos, os humores
as fogueiras, os cedros, as macieiras
o fumo das taças, das entranhas, fulgores -
ao rubro nas vénias outonais a aura dos ancestrais.
ar, fumo, o espírito
em carne negrume luminescente
brancura a dor, o dom
fogo mudo, fogo tudo, ouro, ouro
o ouro.

domingo, 20 de outubro de 2013

serpente, minha cidade
oráculo espelho da trindade
teu corpo é solo, é colo
natal, berço e morte,
tua pele, penas e graças, as calçadas
nas tágides águas o halo das peles largadas.

a estibordo, os ventos da luz infinda.
o mar das profundezas inunda as flores dos altos cumes montanhescos.
espigas douradas
anseios do desnudar, a desfolhada,
sonho-te nos milheirais.
Tudo em pausa no sol do equinócio. Só o caniçal dança. E a criança.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

joelhos ao solo
justo silêncio 
incenso, descalço coração
nos pés a língua húmida, o beijo do leão.
subida ao monte
descalça, peito nu
meu cavalo branco, brando
pulsar da terra, bravo corpo
o lume e as cinzas, santa incensação.
na queda prometida, a humildade, o húmus, o pomar.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

tocam os sinos
acendem-se tochas
partem amores ao vento
os gárgulas guardam.
cânticos dos cânticos
espíritos magistrais
graças d'amor 
tomam o corpo e o sangue de tua filha,
Nossa Senhora da Sede. ámen.

( amanhecer na Catedral de Sevilha )
o canto dos ciprestes
escrevem os pássaros
nas douradas planícies à brisa das ternas neblinas de setembro.
o corpo é um milagre.
no forno
fumo, pão, corpo e sangue
do fogo tessituras
o templo, ao alto as juras, chuvas.
no espigueiro o recolhimento,
a cela, o celeiro.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

quando estamos a morrer, amamos.