o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
é na morte a vida de todos os céus antepassados, oh anciãos amores em meu sangue os vossos, os ossos, os humores as fogueiras, os cedros, as macieiras o fumo das taças, das entranhas, fulgores - ao rubro nas vénias outonais a aura dos ancestrais.
ar, fumo, o espírito em carne negrume luminescente brancura a dor, o dom fogo mudo, fogo tudo, ouro, ouro o ouro.
domingo, 20 de outubro de 2013
serpente, minha cidade oráculo espelho da trindade teu corpo é solo, é colo natal, berço e morte, tua pele, penas e graças, as calçadas nas tágides águas o halo das peles largadas.
a estibordo, os ventos da luz infinda.
o mar das profundezas inunda as flores dos altos cumes montanhescos.
espigas douradas anseios do desnudar, a desfolhada, sonho-te nos milheirais.
Tudo em pausa no sol do equinócio. Só o caniçal dança. E a criança.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
joelhos ao solo justo silêncio incenso, descalço coração nos pés a língua húmida, o beijo do leão.
subida ao monte descalça, peito nu meu cavalo branco, brando pulsar da terra, bravo corpo o lume e as cinzas, santa incensação.
na queda prometida, a humildade, o húmus, o pomar.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
tocam os sinos acendem-se tochas partem amores ao vento os gárgulas guardam.
cânticos dos cânticos espíritos magistrais graças d'amor tomam o corpo e o sangue de tua filha, Nossa Senhora da Sede. ámen.
( amanhecer na Catedral de Sevilha )
o canto dos ciprestes escrevem os pássaros nas douradas planícies à brisa das ternas neblinas de setembro.
o corpo é um milagre.
no forno fumo, pão, corpo e sangue do fogo tessituras o templo, ao alto as juras, chuvas.
no espigueiro o recolhimento, a cela, o celeiro.
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
quando estamos a morrer, amamos.
deserto descoberto, a pele derradeira corpo nu, olhar sem fronteira destino, as dunas, o tempo morrer, a saudade, íntimo ao vento.
ao sol poente a hora nascente do finisterra, desfiladeiro dos peregrinos do oriente.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
o homem nasce para libertar o nascimento de si.
sábado, 27 de julho de 2013
à temperatura abissal se encontra a noite e a transparência.
ao anoitecer a fé no tombar da luz as escadas alvo, o altar, na subida à madrugada.
terça-feira, 23 de julho de 2013
no athanor, a egrégora o sopro no fogo, a amalgama a operar num só, todo, fundo e evanescente corpo o jamais tempo . meus Irmãos !
volver aos fundos, húmido impregnar pulsa o retorno, amor a perecer nas graças do alvor.
na mira o peito aberto, a este no horizonte o amanhecer da esfera fado da noite armilar.
quinta-feira, 11 de julho de 2013
limiar da pena, o calvário teu amor, tua dor minha dor, meu amor mãe, velada consagração.
na dúvida, o benefício da escuta.
no timbre da pena pendulo em matinais e nocturnos repiques sino é o meu peito monasterial sonoro silêncio, amante respirar.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Neste rio a correnteza dos tempos, pranto de todas as almas, a minha pia baptismal.