Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

tocam os sinos
acendem-se tochas
partem amores ao vento
os gárgulas guardam.
cânticos dos cânticos
espíritos magistrais
graças d'amor 
tomam o corpo e o sangue de tua filha,
Nossa Senhora da Sede. ámen.

( amanhecer na Catedral de Sevilha )
o canto dos ciprestes
escrevem os pássaros
nas douradas planícies à brisa das ternas neblinas de setembro.
o corpo é um milagre.
no forno
fumo, pão, corpo e sangue
do fogo tessituras
o templo, ao alto as juras, chuvas.
no espigueiro o recolhimento,
a cela, o celeiro.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

quando estamos a morrer, amamos.

deserto descoberto, a pele derradeira
corpo nu, olhar sem fronteira
destino, as dunas, o tempo
morrer, a saudade, íntimo ao vento.
ao sol poente a hora nascente do finisterra,
desfiladeiro dos peregrinos do oriente.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013


o homem nasce para libertar o nascimento de si.

sábado, 27 de julho de 2013

à temperatura abissal
se encontra a noite e a transparência.
ao anoitecer a fé
no tombar da luz as escadas
alvo, o altar, na subida à madrugada.

terça-feira, 23 de julho de 2013

no athanor, a egrégora
o sopro no fogo, a amalgama
a operar num só, todo, fundo e evanescente corpo o jamais tempo .
meus Irmãos !
volver aos fundos, húmido impregnar
pulsa o retorno, amor
a perecer nas graças do alvor.
na mira o peito aberto,
a este no horizonte 
o amanhecer da esfera
fado da noite armilar.

quinta-feira, 11 de julho de 2013


limiar da pena, o calvário
teu amor, tua dor
minha dor, meu amor
mãe, velada consagração.

na dúvida, o benefício da escuta.

no timbre da pena pendulo 
em matinais e nocturnos repiques
sino é o meu peito monasterial
sonoro silêncio, amante respirar.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Neste rio a correnteza dos tempos,
pranto de todas as almas,
a minha pia baptismal.

sábado, 22 de junho de 2013

parto na procissão matinal dos ventos,
sob a neblina o imponderável rumo
a solo, em unas areias, deserto meu.
abisma-te no solstício
em suspensão ante a estrela
o céu anuncia sem iludir 
o crescendo da noite por ti vai subir.

Tocai-vos uns aos outros.


a busca é o vício,
ébrio adiamento,
o êxtase para não encontrar.
No vale das oliveiras chora a pobre menina das minas de ouro.
O corpo é um estado de espírito.

o coração de Lisboa é uma aldeia,
uma menina senhora, uma criança antiga,
uma frescura rubra, um rebento filosofal,
os sinos das torres das igrejas vibram as colinas
e todas as calçadas são santuários,
e todas as janelas são miradouros,
e todas as almas, santas
- Lisboa sacra

terça-feira, 11 de junho de 2013



sob esta cúpula o anjo
no seio em flor escuto
na sôfrega inocência o rubro coração
comungo da luz sua mão
pássaros no olhar, franqueio o portão.



no silêncio da noite o clamor dos fundos
afundar dos tempos
o infundado retorno.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

estarei acordada,
muito tempo,
todos os tempos
e saberei que nunca houve tempo como este,
e que este é o tempo eterno.

L'a
meu irmão, meu guardião
sou aqui, sou a que de ti não parti
sei-o no teu sorriso a melar
em tua fronte iluminada está o sinal
meu olhar
nossa raça, o meu sol, o meu chorar
náufragos neste oceano de encanto sangue
águas de fogo do nosso irmano canto.

ao meu irmão Virgílio Augusto