Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 23 de julho de 2013

no athanor, a egrégora
o sopro no fogo, a amalgama
a operar num só, todo, fundo e evanescente corpo o jamais tempo .
meus Irmãos !
volver aos fundos, húmido impregnar
pulsa o retorno, amor
a perecer nas graças do alvor.
na mira o peito aberto,
a este no horizonte 
o amanhecer da esfera
fado da noite armilar.

quinta-feira, 11 de julho de 2013


limiar da pena, o calvário
teu amor, tua dor
minha dor, meu amor
mãe, velada consagração.

na dúvida, o benefício da escuta.

no timbre da pena pendulo 
em matinais e nocturnos repiques
sino é o meu peito monasterial
sonoro silêncio, amante respirar.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Neste rio a correnteza dos tempos,
pranto de todas as almas,
a minha pia baptismal.

sábado, 22 de junho de 2013

parto na procissão matinal dos ventos,
sob a neblina o imponderável rumo
a solo, em unas areias, deserto meu.
abisma-te no solstício
em suspensão ante a estrela
o céu anuncia sem iludir 
o crescendo da noite por ti vai subir.

Tocai-vos uns aos outros.


a busca é o vício,
ébrio adiamento,
o êxtase para não encontrar.
No vale das oliveiras chora a pobre menina das minas de ouro.
O corpo é um estado de espírito.

o coração de Lisboa é uma aldeia,
uma menina senhora, uma criança antiga,
uma frescura rubra, um rebento filosofal,
os sinos das torres das igrejas vibram as colinas
e todas as calçadas são santuários,
e todas as janelas são miradouros,
e todas as almas, santas
- Lisboa sacra

terça-feira, 11 de junho de 2013



sob esta cúpula o anjo
no seio em flor escuto
na sôfrega inocência o rubro coração
comungo da luz sua mão
pássaros no olhar, franqueio o portão.



no silêncio da noite o clamor dos fundos
afundar dos tempos
o infundado retorno.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

estarei acordada,
muito tempo,
todos os tempos
e saberei que nunca houve tempo como este,
e que este é o tempo eterno.

L'a
meu irmão, meu guardião
sou aqui, sou a que de ti não parti
sei-o no teu sorriso a melar
em tua fronte iluminada está o sinal
meu olhar
nossa raça, o meu sol, o meu chorar
náufragos neste oceano de encanto sangue
águas de fogo do nosso irmano canto.

ao meu irmão Virgílio Augusto

sexta-feira, 31 de maio de 2013


há uma serenidade impensável leve e derradeira
há uma dor, impensável, próxima e marginal.

anjo meu
pousa neste alpendre
sobre este soalho senta-te a meu lado
escuto
a brisa no afago às espigas
sonho
o tempo e o doce tombar da chuva.
idos tempos outrora já
doravante sempre agora.
o corpo nas mágoas o decanto 
hóstia em negras florestas
no peito o leito do cálice derramado
prenhe d'amor meu pranto.
nascimento
e morro
todo o amor sem adiamento
agora e no soçobro
respiração a pleno intento.
imponderável e etéreo 
o tempo do corpo assoma na pele o vigor do espírito a liberar
- deidade da idade
O corpo reconhece o amor original.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

luz entardecida
neste nicho, íntimas arcadas
a sombra da virgem, o espelho
cabelos negros à beira falésia,
nesta tribuna o memorial de unos silêncios
a vocação numenal.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

passos no mundo, vultos pela terra,
no afundamado silêncio 
a punção, a lavra da pedra.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

à flor da pele
as rendas da combinação 
corpo que se verte para o branco leito
a doçura na face na almofada ao pousar
o sono, divino, a partida
o culto do despertar.

eis a filha da terra em pleno solo a noivar
eis o cuco, o cucar, a formiga, o grilo
a lagarta, a joaninha, a aranha a entear
em todo este chão de ouro um pouso solar
leito, húmus, na gestação de maio, de maria
humedecido o ventre, amante cobrir da semente
eis a floração do fruto anunciado
o gemido universal, sacramental
na mais bela assunção do verbo
- desMaio

quinta-feira, 2 de maio de 2013

a simplicidade é um requinte.