Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



sexta-feira, 31 de maio de 2013

imponderável e etéreo 
o tempo do corpo assoma na pele o vigor do espírito a liberar
- deidade da idade
O corpo reconhece o amor original.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

luz entardecida
neste nicho, íntimas arcadas
a sombra da virgem, o espelho
cabelos negros à beira falésia,
nesta tribuna o memorial de unos silêncios
a vocação numenal.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

passos no mundo, vultos pela terra,
no afundamado silêncio 
a punção, a lavra da pedra.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

à flor da pele
as rendas da combinação 
corpo que se verte para o branco leito
a doçura na face na almofada ao pousar
o sono, divino, a partida
o culto do despertar.

eis a filha da terra em pleno solo a noivar
eis o cuco, o cucar, a formiga, o grilo
a lagarta, a joaninha, a aranha a entear
em todo este chão de ouro um pouso solar
leito, húmus, na gestação de maio, de maria
humedecido o ventre, amante cobrir da semente
eis a floração do fruto anunciado
o gemido universal, sacramental
na mais bela assunção do verbo
- desMaio

quinta-feira, 2 de maio de 2013

a simplicidade é um requinte.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

nos quatro braços
a velada rendição 
sob o véu negro, paixão a coberto
branca nudez
púrpuras preces.

sábado, 27 de abril de 2013

tua taça mãe! suma fonte 
última ceia, meu círio
chão de lajes guardadora
vestes de lua o escuro
fundas-me luz das trevas
toda a terra me jaz neste amor em que desabas
todo o súbito choro é meu santo clamor, 
cai a noite, sobre mim a aurora
- blimunda por dentro.

sexta-feira, 26 de abril de 2013


sacra prima vez
no beijo sempre-noivos
a iniciação pleno bosque,
unas geografias, seiva indistinta,
a ininterrupta e inefável única vez
- casal primordial

terça-feira, 23 de abril de 2013

amor, 
súbito 
incessante
urgente
e eminente
desprendimento.

segunda-feira, 22 de abril de 2013


noite na estrada
cavalos correm, rostos vermelhos, troncos nus
no deserto o poço
húmidos chãos, feridas mãos
no canto dos pássaros nocturnos o som uterino,
ao grito avistam-se as brumas, salta a gazela.

adentro-me no jardim, minha casa, minha casta
descalço-me junto ao cipreste
percorro todos os arbustos
beijo todas as flores
cheiro todos os odores
salto para este muro, sento-me junto à roseira
toco-lhe o cacho de rosas
e recordo a minha oração 
são rosas a minha oração, são rosas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

que sede, 
sede imortal, sede de morrer, 
sede deste mar, sede do areal, 
que sede de me impregnar, dessedentar vasta, vasta, vasta !
Do átrio e pelo ádito prossegue o jardim, passos sob o éden
no transepto a dor, dourada, adorada flor
perfume da espiga, pão em altar
sangue em corpo, insigne, sacro.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

não te confines à liberdade.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

a semente do céu 

à terra cai no primo ventre a raíz no húmus se entronca o gesto para o alto, os frutos do céu- religação

sexta-feira, 12 de abril de 2013

o sol arde, queima e abre a vera noite.
no terreiro a baga do cipreste, brasão lunar
o eco das orações nas pedras do templo
ajoelho-me de anoitecer.
num ponto indeterminável se determina o ponto de encontro.

segunda-feira, 1 de abril de 2013


nas longas noites de recobro
teus passos inaudíveis a descoberto,
pia mater,
teu corpo e sangue
lágrimas do amanhecer
aberta a rosa no peito
pousas a coroa, guardiã da vinha.

quinta-feira, 28 de março de 2013


canto da amorosa morte,
no rosto os sulcos, corações a entrelaçar 
no olhar o brilho imortal
- cordeiro na travessia sacra, 
Pai !

terça-feira, 26 de março de 2013

Parsifal encostado à macieira
aguarda-te de cálice na mão
mergulhas ao fundo nas águas do lago 
unes-te à espada na rocha magma forjada, 
ressurges em brumas noiva vestal

segunda-feira, 25 de março de 2013


Toda a elevação se sublima na descensão.

sábado, 23 de março de 2013

inclino-me
desenrolo a minha voz mumificada
deponho todos os invólucros
aqui estou entre vós, irmãs árvores
livre e estrangeira na transparência do silêncio
nada nos satisfaz quando estamos satisfeitos.

sexta-feira, 22 de março de 2013



fiéis aos sopros em nossos corações
abeiramo-nos do meio sem meio, a via
rostos erguidos, de mãos amadas, 
na linha da navalha, promessa equatorial da irmandade
- invocação do equinócio

botão desta flor
grávida semente da semente em flor
pedaço de terra todo o amor
mulher, nu corpo, maríntimo
mênstruo, o perfume, o nicho
rio corrente do imperecível 
- contemplação d'amortal

sábado, 16 de março de 2013

o crepúsculo entranha-me as origens 
as árvores a intimidade, as nuvens o azul,
do negro ao rubro
pelos arcos, esquinas, campanários, telhados
o torno, o forno, o retorno 
passo a passo, ecos, os irmãos, a chuva
- perfume das flores nesta jarra.

quinta-feira, 7 de março de 2013



na tristeza que se instala está o divino que te abala.