o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
imponderável e etéreo o tempo do corpo assoma na pele o vigor do espírito a liberar - deidade da idade
O corpo reconhece o amor original.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
luz entardecida neste nicho, íntimas arcadas a sombra da virgem, o espelho cabelos negros à beira falésia, nesta tribuna o memorial de unos silêncios a vocação numenal.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
passos no mundo, vultos pela terra, no afundamado silêncio a punção, a lavra da pedra.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
à flor da pele as rendas da combinação corpo que se verte para o branco leito a doçura na face na almofada ao pousar o sono, divino, a partida o culto do despertar.
eis a filha da terra em pleno solo a noivar eis o cuco, o cucar, a formiga, o grilo a lagarta, a joaninha, a aranha a entear em todo este chão de ouro um pouso solar leito, húmus, na gestação de maio, de maria humedecido o ventre, amante cobrir da semente eis a floração do fruto anunciado o gemido universal, sacramental na mais bela assunção do verbo - desMaio
quinta-feira, 2 de maio de 2013
a simplicidade é um requinte.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
nos quatro braços a velada rendição sob o véu negro, paixão a coberto branca nudez púrpuras preces.
sábado, 27 de abril de 2013
tua taça mãe! suma fonte última ceia, meu círio chão de lajes guardadora vestes de lua o escuro fundas-me luz das trevas toda a terra me jaz neste amor em que desabas todo o súbito choro é meu santo clamor, cai a noite, sobre mim a aurora - blimunda por dentro.
sexta-feira, 26 de abril de 2013
sacra prima vez no beijo sempre-noivos a iniciação pleno bosque, unas geografias, seiva indistinta, a ininterrupta e inefável única vez - casal primordial
terça-feira, 23 de abril de 2013
amor, súbito incessante urgente e eminente desprendimento.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
noite na estrada cavalos correm, rostos vermelhos, troncos nus no deserto o poço húmidos chãos, feridas mãos no canto dos pássaros nocturnos o som uterino, ao grito avistam-se as brumas, salta a gazela.
adentro-me no jardim, minha casa, minha casta descalço-me junto ao cipreste percorro todos os arbustos beijo todas as flores cheiro todos os odores salto para este muro, sento-me junto à roseira toco-lhe o cacho de rosas e recordo a minha oração são rosas a minha oração, são rosas.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
que sede, sede imortal, sede de morrer, sede deste mar, sede do areal, que sede de me impregnar, dessedentar vasta, vasta, vasta !
Do átrio e pelo ádito prossegue o jardim, passos sob o éden no transepto a dor, dourada, adorada flor perfume da espiga, pão em altar sangue em corpo, insigne, sacro.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
não te confines à liberdade.
segunda-feira, 15 de abril de 2013
a semente do céu
à terra cai no primo ventre a raíz no húmus se entronca o gesto para o alto, os frutos do céu- religação
sexta-feira, 12 de abril de 2013
o sol arde, queima e abre a vera noite.
no terreiro a baga do cipreste, brasão lunar
o eco das orações nas pedras do templo
ajoelho-me de anoitecer.
num ponto indeterminável se determina o ponto de encontro.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
nas longas noites de recobro teus passos inaudíveis a descoberto, pia mater, teu corpo e sangue lágrimas do amanhecer aberta a rosa no peito pousas a coroa, guardiã da vinha.
quinta-feira, 28 de março de 2013
canto da amorosa morte, no rosto os sulcos, corações a entrelaçar no olhar o brilho imortal - cordeiro na travessia sacra, Pai !
terça-feira, 26 de março de 2013
Parsifal encostado à macieira aguarda-te de cálice na mão mergulhas ao fundo nas águas do lago unes-te à espada na rocha magma forjada, ressurges em brumas noiva vestal
segunda-feira, 25 de março de 2013
Toda a elevação se sublima na descensão.
sábado, 23 de março de 2013
inclino-me desenrolo a minha voz mumificada deponho todos os invólucros aqui estou entre vós, irmãs árvores livre e estrangeira na transparência do silêncio
nada nos satisfaz quando estamos satisfeitos.
sexta-feira, 22 de março de 2013
fiéis aos sopros em nossos corações abeiramo-nos do meio sem meio, a via rostos erguidos, de mãos amadas, na linha da navalha, promessa equatorial da irmandade - invocação do equinócio
botão desta flor grávida semente da semente em flor pedaço de terra todo o amor mulher, nu corpo, maríntimo mênstruo, o perfume, o nicho rio corrente do imperecível - contemplação d'amortal
sábado, 16 de março de 2013
o crepúsculo entranha-me as origens as árvores a intimidade, as nuvens o azul, do negro ao rubro pelos arcos, esquinas, campanários, telhados o torno, o forno, o retorno passo a passo, ecos, os irmãos, a chuva - perfume das flores nesta jarra.
quinta-feira, 7 de março de 2013
na tristeza que se instala está o divino que te abala.