Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



segunda-feira, 1 de abril de 2013


nas longas noites de recobro
teus passos inaudíveis a descoberto,
pia mater,
teu corpo e sangue
lágrimas do amanhecer
aberta a rosa no peito
pousas a coroa, guardiã da vinha.

quinta-feira, 28 de março de 2013


canto da amorosa morte,
no rosto os sulcos, corações a entrelaçar 
no olhar o brilho imortal
- cordeiro na travessia sacra, 
Pai !

terça-feira, 26 de março de 2013

Parsifal encostado à macieira
aguarda-te de cálice na mão
mergulhas ao fundo nas águas do lago 
unes-te à espada na rocha magma forjada, 
ressurges em brumas noiva vestal

segunda-feira, 25 de março de 2013


Toda a elevação se sublima na descensão.

sábado, 23 de março de 2013

inclino-me
desenrolo a minha voz mumificada
deponho todos os invólucros
aqui estou entre vós, irmãs árvores
livre e estrangeira na transparência do silêncio
nada nos satisfaz quando estamos satisfeitos.

sexta-feira, 22 de março de 2013



fiéis aos sopros em nossos corações
abeiramo-nos do meio sem meio, a via
rostos erguidos, de mãos amadas, 
na linha da navalha, promessa equatorial da irmandade
- invocação do equinócio

botão desta flor
grávida semente da semente em flor
pedaço de terra todo o amor
mulher, nu corpo, maríntimo
mênstruo, o perfume, o nicho
rio corrente do imperecível 
- contemplação d'amortal

sábado, 16 de março de 2013

o crepúsculo entranha-me as origens 
as árvores a intimidade, as nuvens o azul,
do negro ao rubro
pelos arcos, esquinas, campanários, telhados
o torno, o forno, o retorno 
passo a passo, ecos, os irmãos, a chuva
- perfume das flores nesta jarra.

quinta-feira, 7 de março de 2013



na tristeza que se instala está o divino que te abala.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

levantas o colarinho do casaco
enrolas o cachecol ao pescoço e sais para o frio
eu deste lado no bar observo-te através da porta envidraçada
atravessas a estrada, é noite
deixo de te ver 
neste momento ressurge-me a essencial desaparição de tudo
reapareces
e outra vida se me reanima.

ao meu irmão Virgílio

Há uma luz que me encontra ao teu lado 
onde estou como a uma sombra 
- vislumbres d'irmã

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

no calor de onde o ar brota
virá o primordial porvir 
despir as noites de nascimento.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Sacrificar a insanidade 
e rejubilar na tempestade da compreensão impossível
- paisagem secreta.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

na bruma o fogo
eco do coração
sulca nos sonhos o brilho
na árvore os veios
nos muros os céus

domingo, 23 de dezembro de 2012

Em tua dor te louvas, lavas, larvas
- abraço de soror.
na mais delicada solidão
no mais sombrio recanto
larga o facho da mentira
- poção solsticial .
todos os passos ensaiam o círculo
a queda natal é um perigo de luz
na surdina de dourados sacrifícios
a afiada espada, o candelabro
o espectro dos amores,
ouvem-se tambores
o canto, o grito, 
silêncio, o cheiro da terra.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

alvorecer do ultimar 
na carne e osso
o culminar da dissolução 
no lugar do corpo, rebento ao relento 
- pur'amor nascido.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Na profundidade de tudo se desaparece.
não há fragmento, viagem ou miragem, no silêncio, véspera de tudo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

estrangeira sou
como a sombra da árvore
que é árvore sem sombra 
- nos primórdios.
musgos, líquenes, heras
restolho pelas serras
rocha, rochedo, medo
árvores, trepadeiras, teias
bagas, louro, ouro 
no sangue das terras as trevas e o fogo -
viagem e abrigo, o inequívoco perecer, o despertar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

na antecâmara da recôndita verdade
estala a pérola.
Se eu fosse vivo, gostava de viver aqui - disse-lhe o pai no cemitério, noite de finados, silêncio nas luzes sobre as lajes, uma vila iluminada.
E tudo o vento traz.
range o soalho, encontro marcado
beijo na cripta, o peito,
caldeirão, sombras no caldo, fumos
na invocação dos idos, húmidos
o cheiro de néctares, soro, santos
fêmeas, fome, fontes 
- nos subterrâneos dos elísios.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

é noite e o pássaro não dorme
da longínqua aura um regresso
ao irrompido silêncio
o pássaro não dorme
cinge o fundo, a pausa, o fôlego.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

. em todos os lares
há céus que abrem janelas
vozes regressadas, visitas douradas
alimento, 
tormento,
amor, 
partidas e promessas. de anjos.

( à nossa Penélope desaparecida )

sexta-feira, 12 de outubro de 2012




estátuas ao sol
aguardamos mares, marés, partidas
tempestuosos caudais
sem velas, redes, verbo e segredo 
somos sal, corpo, vagar
corpo e vagar
ante a cruz tumular, o céu, o altar.

in Catedral de Barcelona