o espírito escreve
sem que o gesto da grafia seja devido.
Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens. Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.
botão desta flor grávida semente da semente em flor pedaço de terra todo o amor mulher, nu corpo, maríntimo mênstruo, o perfume, o nicho rio corrente do imperecível - contemplação d'amortal
sábado, 16 de março de 2013
o crepúsculo entranha-me as origens as árvores a intimidade, as nuvens o azul, do negro ao rubro pelos arcos, esquinas, campanários, telhados o torno, o forno, o retorno passo a passo, ecos, os irmãos, a chuva - perfume das flores nesta jarra.
quinta-feira, 7 de março de 2013
na tristeza que se instala está o divino que te abala.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
levantas o colarinho do casaco enrolas o cachecol ao pescoço e sais para o frio eu deste lado no bar observo-te através da porta envidraçada atravessas a estrada, é noite deixo de te ver neste momento ressurge-me a essencial desaparição de tudo reapareces e outra vida se me reanima.
Há uma luz que me encontra ao teu lado onde estou como a uma sombra - vislumbres d'irmã
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
no calor de onde o ar brota virá o primordial porvir despir as noites de nascimento.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Sacrificar a insanidade e rejubilar na tempestade da compreensão impossível - paisagem secreta.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
na bruma o fogo eco do coração sulca nos sonhos o brilho na árvore os veios nos muros os céus
domingo, 23 de dezembro de 2012
Em tua dor te louvas, lavas, larvas - abraço de soror.
na mais delicada solidão no mais sombrio recanto larga o facho da mentira - poção solsticial .
todos os passos ensaiam o círculo a queda natal é um perigo de luz na surdina de dourados sacrifícios a afiada espada, o candelabro o espectro dos amores, ouvem-se tambores o canto, o grito, silêncio, o cheiro da terra.
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
alvorecer do ultimar na carne e osso o culminar da dissolução no lugar do corpo, rebento ao relento - pur'amor nascido.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Na profundidade de tudo se desaparece.
não há fragmento, viagem ou miragem, no silêncio, véspera de tudo.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
estrangeira sou como a sombra da árvore que é árvore sem sombra - nos primórdios.
musgos, líquenes, heras restolho pelas serras rocha, rochedo, medo árvores, trepadeiras, teias bagas, louro, ouro no sangue das terras as trevas e o fogo - viagem e abrigo, o inequívoco perecer, o despertar.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
na antecâmara da recôndita verdade estala a pérola.
Se eu fosse vivo, gostava de viver aqui - disse-lhe o pai no cemitério, noite de finados, silêncio nas luzes sobre as lajes, uma vila iluminada.
E tudo o vento traz.
range o soalho, encontro marcado beijo na cripta, o peito, caldeirão, sombras no caldo, fumos na invocação dos idos, húmidos o cheiro de néctares, soro, santos fêmeas, fome, fontes - nos subterrâneos dos elísios.
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
é noite e o pássaro não dorme da longínqua aura um regresso ao irrompido silêncio o pássaro não dorme cinge o fundo, a pausa, o fôlego.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
. em todos os lares há céus que abrem janelas vozes regressadas, visitas douradas alimento, tormento, amor, partidas e promessas. de anjos.
( à nossa Penélope desaparecida )
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
estátuas ao sol
aguardamos mares, marés, partidas
tempestuosos caudais
sem velas, redes, verbo e segredo
somos sal, corpo, vagar
corpo e vagar
ante a cruz tumular, o céu, o altar.
in Catedral de Barcelona
terça-feira, 4 de setembro de 2012
tocam os sinos, os astros o rasgo do tempo a respiração do corpo, eis o sol de todas as chuvas o esconderijo de todas as sombras a rega de todas as sementes, a reza de setembro.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
pés descalços sobre as tábuas árvores guardiãs das vidas dos mortos, o sangue minha avó, minha avó, minha avó de Soledade.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
ela vestia-se de vento de um negro dourado de um raio de luz suspenso e obscuro olhar mariano, vestal ardente abeirava-se das falésias as marés relinchavam sulcando todos os areais vingando as primordiais.
domingo, 19 de agosto de 2012
Faz tudo certinho, à margem !
escuto na vadiagem da manhã minha montada as pedras da calçada sob o céu azul, luminoso lacrimoso na penumbra a minha sina minhas mãos do barro a cúpula erguida minha espada na rocha - canta o galo ao canto do cisne, doce tremor