Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Se eu fosse vivo, gostava de viver aqui - disse-lhe o pai no cemitério, noite de finados, silêncio nas luzes sobre as lajes, uma vila iluminada.
E tudo o vento traz.
range o soalho, encontro marcado
beijo na cripta, o peito,
caldeirão, sombras no caldo, fumos
na invocação dos idos, húmidos
o cheiro de néctares, soro, santos
fêmeas, fome, fontes 
- nos subterrâneos dos elísios.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

é noite e o pássaro não dorme
da longínqua aura um regresso
ao irrompido silêncio
o pássaro não dorme
cinge o fundo, a pausa, o fôlego.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

. em todos os lares
há céus que abrem janelas
vozes regressadas, visitas douradas
alimento, 
tormento,
amor, 
partidas e promessas. de anjos.

( à nossa Penélope desaparecida )

sexta-feira, 12 de outubro de 2012




estátuas ao sol
aguardamos mares, marés, partidas
tempestuosos caudais
sem velas, redes, verbo e segredo 
somos sal, corpo, vagar
corpo e vagar
ante a cruz tumular, o céu, o altar.

in Catedral de Barcelona

terça-feira, 4 de setembro de 2012

tocam os sinos, 
os astros
o rasgo do tempo
a respiração do corpo,
eis o sol de todas as chuvas
o esconderijo de todas as sombras
a rega de todas as sementes, 
a reza de setembro.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

pés descalços sobre as tábuas
árvores guardiãs das vidas dos mortos, o sangue
minha avó, minha avó,
minha avó de Soledade.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

ela vestia-se de vento
de um negro dourado
de um raio de luz suspenso e obscuro
olhar mariano, vestal ardente
abeirava-se das falésias
as marés relinchavam 
sulcando todos os areais 
vingando as primordiais.

domingo, 19 de agosto de 2012

Faz tudo certinho, à margem !
escuto
na vadiagem da manhã
minha montada
as pedras da calçada
sob o céu azul, luminoso
lacrimoso
na penumbra a minha sina
minhas mãos
do barro a cúpula erguida
minha espada na rocha
- canta o galo ao canto do cisne, 
doce tremor

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Nenhuma palavra celebra
a profusão dos sopros
na consumação do destino.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

a Via(gem)
 
em toda a partida se reúne e realiza
a verdade primeira e última do Início
na fundura das impossíveis vagas se cura
a ferida do eterno retorno.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

janela aberta,
o sol da manhã
raia um trilho
a gata
pousa
os seus papéis,
todos,
e larga,
todas,
as ideias,
e segue o trilho
até à janela
salta para o parapeito
fronte iluminada
olhos fechados
e a gata encontra,
encontra o mundo,
ama-o.

- sonho d'amor
in diário do mundo, o gato amado.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Poderão os sopros e as estações desaparecer 
mas não o canto da graça na aparição dos silêncios.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

no fogo solsticial, a suspensão em pleno, contigo, irmão sol
lavas-me,
estendes-me o rubro fruto
e anuncias-me a subida pelo ventre da montanha, 
os fundos douro.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

 

anoitecer no deserto

quando a mágoa atinge a suavidade
o céu finalmente escurece
e a noite pousa em silêncio;
e é do lado de dentro do que assim se abisma
que irrompe um sopro fundo
que vem fundo abrir no peito a rosa.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Os outonos aguardam o final do verão
nas árvores fulgura o silêncio da semente
soprarão ventos, cairão frutos
as copas serão vistas dos reversos
e vai tocar, vai soar, sim, a soledade
ao expirar do primeiro alento – missiva de delfos à filha, antes de mais.

terça-feira, 6 de março de 2012

No sangue se abrigam vastas origens.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Em rigor não se pisa o risco,
transgride-se à risca!

a saudade é a chama; o chamamento, o silêncio.

homenagem

O homem nasce quando se levanta de haver nascido.

solve et coagula

Verdade é o fogo secreto que nos dissolve a voz na escuta para d'ourados silêncios.
Refundo-me no colapso da plena adoração.

Talvez à vista não salte,
porque se firmam no firmamento, imóveis
as vozes pousadas em silêncio na sede de um diálogo cristalino.
Se te diriges para onde sabes que queres ir
não precisarás de pensar caminhos para lá chegar.
O ponto de equilíbrio é um ponto de vista.

Saudade - a precognição


Pressagiamos a nossa imortalidade original e ainda assim corremos com(tra) o Tempo.







domingo, 5 de fevereiro de 2012

As grandes alegrias não são extraordinárias.