Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Nenhuma palavra celebra
a profusão dos sopros
na consumação do destino.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

a Via(gem)
 
em toda a partida se reúne e realiza
a verdade primeira e última do Início
na fundura das impossíveis vagas se cura
a ferida do eterno retorno.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

janela aberta,
o sol da manhã
raia um trilho
a gata
pousa
os seus papéis,
todos,
e larga,
todas,
as ideias,
e segue o trilho
até à janela
salta para o parapeito
fronte iluminada
olhos fechados
e a gata encontra,
encontra o mundo,
ama-o.

- sonho d'amor
in diário do mundo, o gato amado.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Poderão os sopros e as estações desaparecer 
mas não o canto da graça na aparição dos silêncios.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

no fogo solsticial, a suspensão em pleno, contigo, irmão sol
lavas-me,
estendes-me o rubro fruto
e anuncias-me a subida pelo ventre da montanha, 
os fundos douro.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

 

anoitecer no deserto

quando a mágoa atinge a suavidade
o céu finalmente escurece
e a noite pousa em silêncio;
e é do lado de dentro do que assim se abisma
que irrompe um sopro fundo
que vem fundo abrir no peito a rosa.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Os outonos aguardam o final do verão
nas árvores fulgura o silêncio da semente
soprarão ventos, cairão frutos
as copas serão vistas dos reversos
e vai tocar, vai soar, sim, a soledade
ao expirar do primeiro alento – missiva de delfos à filha, antes de mais.

terça-feira, 6 de março de 2012

No sangue se abrigam vastas origens.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Em rigor não se pisa o risco,
transgride-se à risca!

a saudade é a chama; o chamamento, o silêncio.

homenagem

O homem nasce quando se levanta de haver nascido.

solve et coagula

Verdade é o fogo secreto que nos dissolve a voz na escuta para d'ourados silêncios.
Refundo-me no colapso da plena adoração.

Talvez à vista não salte,
porque se firmam no firmamento, imóveis
as vozes pousadas em silêncio na sede de um diálogo cristalino.
Se te diriges para onde sabes que queres ir
não precisarás de pensar caminhos para lá chegar.
O ponto de equilíbrio é um ponto de vista.

Saudade - a precognição


Pressagiamos a nossa imortalidade original e ainda assim corremos com(tra) o Tempo.







domingo, 5 de fevereiro de 2012

As grandes alegrias não são extraordinárias.

domingo, 29 de janeiro de 2012

No olhar do outro encontras os teus sonhos mais remotos.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

senta-te junto ao altar
sem leituras, sem rezar,
pousa o rosário
senta-te junto ao altar
espera sem esperar
sua reverência ausência

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

penhamata

no imo do cimo o magma da bem amada
emana, irmana o perfume de cedros e montanha
na pele as rosas e os musgos
o fado a chama, a chamada
os melros, os cerros, e a montada
na lunação do véu uiva a aurora,
a sede, acende, ascende, nascente.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Todos os dias o melro mirava-se ao espelho, demorava-se a cantar.
Um dia, ao pintar o bico de vermelho, caíram-lhe as penas. Riu-se.
Riu-se tanto que acordou.
Naquele arbusto pendiam bagas vermelhas.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Deram-se as mãos, abriram-se vales, irrompeu a montanha.




sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Na arca o guardar do pão
no forno trazer o fogo a cozer a massa
nesta panela, ao levantar o testo, a prova do caldo
na casa o calor perfumado, e no céu
em tudo, o sacro alento da árvore.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

braço, berço, balouço
desces de tua casa,
que espreitas minha vera?

desço desço, sim
suo,
alta vai a noite
nasce-me uma fome
uma fome, de perigo
de um doce perigoso - geme a pantera.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Beber, beber tudo, o todo
e cair, cair da superfície abaixo
até ao fundo, ao lodo
ao mudo, ao mundo - diz o lótus.