Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014




na orla do morrer se espera
nos limiares o leve e o bem
as contas do colar ressoltas
alam-se dores pés e amores.
naquela casinha à beira rio me retiro
por estas estradas fora ali é a viagem.

olhámos para o muro, sorrimos um para o outro
mãos pés pernas, e salto, chamámos os melros.


aos olhos sussurram o longe, a baleia, a gaivota, o mar, meu corpo perto.
na efervescência do entardecer o céu uma enseada
baixa a maré, baixa a noite, sobe a lua prosternada.


mulher que sobes as escadas
as gaivotas no céu entorno 
perfume de cactos, palmeiras, buganvílias, 
e mar, 
o mar adentro o areal.


tocam os sinos à transparência do deserto
os pássaros escrevem as glórias da manhã
não há pecado, pecadores, nem desculpas
puríssima, tuas bençãos sobre nosso graal
despertemos em filho na unidade da pomba.
| Catedral de Almeria |


o inefável manancial do deserto.


os melros lá estavam à hora anunciada das chuvas 
recostados, faces voltadas para o céu, benziam-se
naquele arbusto e luzidias pingavam as bagas vermelhas.


invejaste-me,
desejaste o meu lugar,
pois agora aprecia, Damocles.