Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



terça-feira, 27 de maio de 2014

ao entrar, parto, o parto
pele, minha barca, os pés
no areal da ampulheta, nua
recém-chegada à partida.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

ao descerrar das brumas 
o assobiar do vendaval 
flameja a espada da ísis ancestral
aves negras na senda dos alvores
a foz na voz d'irmãos amores
fogo diamantino, vulcão, 
minha lava, minhas cinzas, 
em todos os desertos, fontes, meu coração 
travessias ao lodo, lótus original.

no rosto a flor de laranjeira,
pólen do tempo impossível.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

na benevolente quietude da montanha
espera inocente, levita o canto do cuco
presságios da imensidão, o esvaziamento.
nos olhos da senhora a subida
prosternação, afilhada erguida,
virginal chama, a ceia, a ceia.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

assim que a filha o avista a sua voz reúne a brisa, os pássaros, os cheiros, o mato, as flores, as cordilheiras, os verdes, o azul, o sol, os insectos, os minérios, as terras, as covas, as represas, as hortas, toda a manhã, todos, no som do p do a do i.

o cuco cuca, tratam-se as videiras, o sol bate as 11, a borboleta branca adeja sobre o faval, o cuco cuca, a pereira, o pessegueiro, a cerejeira soltam das flores prenhes seus frutos, prenúncio de maio, promessa de abastança no fervor das rezas dos campos.
na velação a fogueira da sétima cúpula
círio ao alto adentra o fogo nas águas 
unção dos espíritos febris dos amores
exaltação das feras, retumbam tambores.
desferida a dádiva do amanhecer
comoção no corpo, o golpe da nudez.
pássaros pela majestosa floração 
ramos, pousos, cantos no azular
os elfos, os anjos, no céu a terra 
as margaridas entrelaçam prados 
poças de chuvas, fetos, insectos
no regato a música, luzem ceptros.
por vezes, David, aconchegamo-nos a tristes penitências
por vezes, sabes, alongamo-nos em alegres promessas
e por vezes esgotamos o tempo de revivermos mil vezes
o conspirado adiamento de nos desenganarmos de vez.
brumas amantam o verde mato
jarros e estrelícias humedecidos
pingam azedas e bagas vermelhas
pousado naquele arbusto o melro.
no peito suspensas as sacras águas
baptismo no deserto névoas da paixão
luz eterna, íntima sede, virá a pomba
o sopro da trindade, imortal reaparição.
entre irmãos nas trevas me ajoelho
nossa catedral amor, eleitas penas
ascender ao abismo perfeito pouso 
a bruma os anjos, luzem açucenas.
no jardim, húmidos ébrios odores 
primaveram os verdes e as flores, 
pássaros em cada ramo folheado
cabelos ao vento, colo desnudado 
mulher ao sol reclinada no banco 
sonha o jardineiro naquele recanto.

Tudo é um antes, um secreto, uma cripta, uns escritos. D'Isso o corpo verbal, a respiração, a onda primordial. Depois os anjos, qual cegonha, a iluminar a via parental, encarnar, o parto, partir . Não há luz que desvele a luz, só a sombra, só o deserto, só o entardecer, só as cinzas, só os irmãos, só o amor, n'Isso.

no feminino o masculino, solar entorno em corpo de lua, 
sagrada assim, deusa irmã materna amante, alma nua.


Quem é anjo sempre aparece.
a perda ou o perdão
o porto ou o portão.
houve no tempo um tempo que há
um tempo que não é do tempo
o tempo de sempre amor.