Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

monte acima sobe a sombra
na cifra do sol rosam os fenos
juntam-se os pássaros.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

amanhecer nos ciprestes, sonho de reis
nas areias sacras entre os irmãos desmontar e ajoelhar.

oração do guarda do anjo

a caminho do instante, guardo-te, meu anjo, na dádiva de vigília que me ensinas. vejo-te nitidamente na luz e na sombra, vulto indistinto. ao largo e à minha beira, cantas amor, nossa infinita irmandade.

meu anjo, perseverante narrador do inenarrável mistério, segredas-me a inocência e eu confesso-te a minha ignorância. oro por ti, oras por mim, tocamo-nos. revezamos. 

de espada benta em mãos, eis-me frágil. frágil, não indefesa, tão frágil, não inofensiva. sobretudo quente de noite e de sonhos, tábuas manuscritas por ti, ó guardador de omissos mapas.
no azul sem fim
de uma nave a flutuar
ouço uma voz a chamar ( será por mim? )

no alambique eu vou entrar
pelo fogo vou subir
( a lua e o sol a murmurar: 
vem para fora de ti, mas não saias d’aqui )

e o alambique a oscilar
em partículas de amor me sinto no ar
para logo me destilar e voltar a mim, aqui,
que do azul afinal nunca saí 
re-voltada a cauda mordi porque do mal não sou
nem o bem me assomou, sou una
sou cinza, fénix de novo
sou amor, soror.

sonho o canto do cisne
minha morte, meu bem
a noite se me apague,
meu natal.