Luíza Dunas nasceu em Lisboa, que tem por sua terra oráculo, porto e pórtico das suas vi(r)agens.

Os escriptos surgem-lhe por obediência, assinalando imperativo que lhe inspira o cumprir de uma travessia revelatória de profundos, da qual se sente tão-só a decifradora e a primeira leitora.



segunda-feira, 29 de abril de 2013

nos quatro braços
a velada rendição 
sob o véu negro, paixão a coberto
branca nudez
púrpuras preces.

sábado, 27 de abril de 2013

tua taça mãe! suma fonte 
última ceia, meu círio
chão de lajes guardadora
vestes de lua o escuro
fundas-me luz das trevas
toda a terra me jaz neste amor em que desabas
todo o súbito choro é meu santo clamor, 
cai a noite, sobre mim a aurora
- blimunda por dentro.

sexta-feira, 26 de abril de 2013


sacra prima vez
no beijo sempre-noivos
a iniciação pleno bosque,
unas geografias, seiva indistinta,
a ininterrupta e inefável única vez
- casal primordial

terça-feira, 23 de abril de 2013

amor, 
súbito 
incessante
urgente
e eminente
desprendimento.

segunda-feira, 22 de abril de 2013


noite na estrada
cavalos correm, rostos vermelhos, troncos nus
no deserto o poço
húmidos chãos, feridas mãos
no canto dos pássaros nocturnos o som uterino,
ao grito avistam-se as brumas, salta a gazela.

adentro-me no jardim, minha casa, minha casta
descalço-me junto ao cipreste
percorro todos os arbustos
beijo todas as flores
cheiro todos os odores
salto para este muro, sento-me junto à roseira
toco-lhe o cacho de rosas
e recordo a minha oração 
são rosas a minha oração, são rosas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

que sede, 
sede imortal, sede de morrer, 
sede deste mar, sede do areal, 
que sede de me impregnar, dessedentar vasta, vasta, vasta !
Do átrio e pelo ádito prossegue o jardim, passos sob o éden
no transepto a dor, dourada, adorada flor
perfume da espiga, pão em altar
sangue em corpo, insigne, sacro.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

não te confines à liberdade.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

a semente do céu 

à terra cai no primo ventre a raíz no húmus se entronca o gesto para o alto, os frutos do céu- religação

sexta-feira, 12 de abril de 2013

o sol arde, queima e abre a vera noite.
no terreiro a baga do cipreste, brasão lunar
o eco das orações nas pedras do templo
ajoelho-me de anoitecer.
num ponto indeterminável se determina o ponto de encontro.

segunda-feira, 1 de abril de 2013


nas longas noites de recobro
teus passos inaudíveis a descoberto,
pia mater,
teu corpo e sangue
lágrimas do amanhecer
aberta a rosa no peito
pousas a coroa, guardiã da vinha.